“Somos na velhice fruto das opções que escolhemos ao longo da vida”, aponta o jornalista Paulo Rogério
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Reencontro depois de muitos anos um amigo da época de juventude, quando tudo ainda é sonho e novidade. Nem lembro mais porque nos separamos, nem o motivo que um não procurou mais o outro. Afinal, com tantas facilidades tecnológicas hoje em dia, é fácil achar alguém nos dias de hoje. No caso do amigo em questão, foi uma mera coincidência do destino, se é que elas existem sem explicação.
Abraço pra cá, abraço pra lá, deixamos a fila do supermercado para conversar em uma lanchonete instalada logo ao lado. Douglas era uns dois anos mais velho que eu, mas o tempo fez essa distância parecer maior. Estava com cabelos ralos, branquinhos como espuma. As olheiras que, antigamente faziam sucesso com as meninas, hoje davam-lhe um aspecto cansado, moribundo.
Lembro de boas histórias de Douglas na juventude. A maioria ligada a namoros, paqueras e sustos. Era um bom jogador de vôlei, em uma época que o esporte sofria grande preconceito entre os homens. Por conta da atividade tinha um porte de atleta, com braços bem definidos, coxas torneadas e os apetrechos que as moças apreciavam.
Esses predicados facilitavam as paqueras. Um dia foi cercado por três de suas fãs e levado a força para um local escondido no prédio, entre a casa das máquinas do elevador e o último andar. Teve que correr para não sair dali completamente pelado. Em outra ocasião, quando estava no exército, engraçou-se por uma Maria Batalhão, e no dia seguinte estava com “chato”, uma espécie de piolho, até nas sobrancelhas. Rapou tudo, ficou igual a um ET.
– Como vai a vida meu amigo? Perguntei a ele. Sem o mesmo brilho dos olhos de antigamente, Douglas contou um pouco a resenha de sua vida. Casou aos 25 anos, logo que se formou. A noiva era bonita e formavam um belo casal. A cerimônia foi cheia de pompas; parou a pequena cidade do interior. Mas a vida profissional tomou outro rumo e, sem firmar-se na profissão escolhida, buscou opções. Sem sucesso.
Pior. Quis manter o ritmo de romances que tinha e nem os quatro filhos conseguiram manter o casamento. Separou-se. Foi morar só, com 40 anos e com tendência ao alcoolismo. O que não chegou a ser novidade para mim.
– Só me separei porque a mulher era muito fria, não gostava de sexo. Nem sei como ainda tivemos filhos – relembrou, enquanto tragava um longo cigarro paraguaio. A solidão da nova casa, mesmo sem o conforto de outrora, durou pouco. Engraçou-se com uma morena 15 anos mais nova, carinhosa, e juntou a pobreza. Logo nasceu um rebento. E mais rápido ainda acabou o dengo, o afago na cabeça e qualquer atenção um com o outro.
Hoje, velho e sem dentes na boca, magérrimo, sem trabalho há mais de 15 anos, vive, segundo me confidenciou, com um dinheirinho do bolsa família. Sofre humilhação diária da morena 15 anos mais nova. Esconde dos filhos a vida desconfortável que tem. Só não consegue encobrir uma enorme hérnia inguinal que apareceu há três anos e que, finalmente, apagou o fogo que tinha. Está na luta para conseguir uma cirurgia pelo SUS e tentar a tão sonhada aposentadoria por idade.
– É meu caro. Eu me olhei no espelho outro dia e só então percebi que estou velho e enrugado e como sinto falta da minha família, choramingou o ex-Don Juan do bairro.
Depois do desabafo do amigo, nos despedimos com um longo abraço e minha promessa de tentar uma ajuda. Observo-o seguindo o caminho oposto ao meu. Passinhos curtos, pernas entreabertas, cigarro em uma mão e uma sacolinha de comprar na outra. Que fim de vida!
Como as histórias se repetem a cada geração. O enredo é quase sempre o mesmo. Somos na velhice fruto das opções que escolhemos ao longo da vida. Nem tudo é razão, nem tudo é só emoção. É preciso equilíbrio e bom senso. As tentações estão à disposição. Não só as ligadas ao sexo, mas também aquelas que nos levam à ganância, ao poder excessivo, ao egoísmo.
Paulo Rogério
Jornalista
paulorogerio42@gmail.com