“Penso que esses loucos – aqueles que ocupam temporariamente os postos mais altos de decisão – é que precisam ser contidos”, aponta o sociólogo Oliveiros Marques
Confira:
“Essas pessoas são loucas. São pessoas loucas e precisam ser contidas.” Imagino que essa frase Donald Trump tenha dito ao se olhar no espelho do banheiro do Hotel Hilton, em Washington. Tudo leva a crer que se trata de uma involuntária sessão de autoconhecimento, ocorrida no entreatos do espetáculo na noite do último sábado.
De fato, houve tiros naquela noite. Como bem avisou a porta-voz da Casa Branca horas antes do evento começar. Um homem armado invadiu a área de segurança do jantar com correspondentes da Casa Branca, disparou contra um agente do Serviço Secreto e provocou pânico generalizado.
Apesar da gravidade, o ataque não deixou vítimas fatais. O agente atingido foi protegido pelo colete à prova de balas, e o suspeito – um homem de 31 anos, cidadão norte-americano da Califórnia – foi rapidamente contido.
Ou seja, do ponto de vista letal, tratou-se de um episódio grave, mas contido. Ainda assim, sintomático. Um retrato de um tempo em que a violência política se infiltra no cotidiano – e, não por acaso, encontra eco em discursos que a naturalizam.
Mas o que dizer das ações conduzidas ou respaldadas pelo próprio Trump ao redor do mundo?
Comecemos, por exemplo, pela escalada militar no Oriente Médio. Os ataques dos Estados Unidos ao Irã, amplamente criticados por organismos internacionais por violarem a soberania do país, reacenderam tensões globais e ampliarem o risco de conflito regional.
É um ato de loucos que devem ou não ser contidos?
Os ataques israelenses no Líbano, realizados sob respaldo político dos Estados Unidos, já produziram milhares de vítimas civis e deslocamentos massivos.
É um ato de loucos que devem ou não ser contidos?
A política migratória endurecida, executada por órgãos como o ICE, acumula denúncias de abusos e episódios de violência armada contra civis, inclusive com mortes registradas desde 2025.
É um ato de loucos que deve ou não ser contido?
Os perdões concedidos por Trump a militares acusados ou condenados por crimes de guerra – incluindo casos envolvendo disparos contra civis – representam o quê, senão a institucionalização da barbárie?
É um ato de loucos que deve ou não ser contido?
E quando um líder ameaça dizimar uma civilização ou atingir patrimônio cultural de uma nação inteira, como fez ao mencionar alvos iranianos em 2019, estamos falando de estratégia ou de delírio?
É um ato de loucos que deve ou não ser contido?
O incidente no hotel Hilton – como está sendo tratado pela imprensa – pode até gerar manchetes momentâneas. Mas ele é pequeno diante da lógica que o antecede e o alimenta. Não nasce do nada. É fruto de um ambiente que se constrói no discurso, se legitima no poder e se manifesta na violência.
Penso que esses loucos – aqueles que ocupam temporariamente os postos mais altos de decisão – é que precisam ser contidos.
Oliveiros Marques
Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas