Há uma parte muito bonita de fazer literatura circular que acontece longe dos holofotes: as boas notícias literárias que chegam por e-mail.
A cada semana, recebo releases, sinopses, apresentações de obras, mensagens de autores e convites para conhecer novos trabalhos. Alguns chegam de escritores já conhecidos; outros, de autores que estão dando os primeiros passos na literatura. Há quem venha de Fortaleza, do interior do Ceará, de outros estados. Há poesia, romance, conto, crônica, ficção científica, literatura autobiográfica.
E eu sou muito grata por cada envio.
Por isso, nesta edição do Cafezim com Literatura, quero fazer uma espécie de agradecimento. Apresentar alguns dos livros e autores que chegaram até mim recentemente é também a minha forma de retribuir a confiança de quem acredita que seu trabalho merece ser conhecido.
Não se trata, necessariamente, de uma resenha ou de uma avaliação literária. É uma porta aberta para apresentar quem está escrevendo, publicando e movimentando a literatura. Porque divulgar livros também é uma maneira de formar leitores.
Então, vamos ao nosso cafezim?
Entre idas, vidas e a poesia do movimento
Começo pelo poeta Adriel Alves, servidor público, nascido em Fortaleza e atualmente residente em Paracuru. Ele acaba de lançar sua obra de estreia, entre idas & vidas, pela Editora Minimalismos.
O livro foi lançado durante a Feira Literária do Ceará, em Paracuru, e reúne poemas que refletem sobre aquilo que talvez seja uma das maiores questões da existência: a nossa transitoriedade.
A obra está dividida em três partes. Na primeira, a vida, o tempo e a morte sentam para conversar, aparecem versos existencialistas sobre as efemeridades e as infinitudes da vida. Na segunda, flora e fauna da natureza humana, o poeta se volta para o cotidiano, as relações humanas e as questões sociais. Já em o artifício poético, a própria poesia se transforma em objeto de celebração.
Adriel escreve há bastante tempo na página Pura Poesia, que reúne milhares de seguidores, e já participou de antologias e premiações literárias.
É uma estreia que chega acompanhada de uma trajetória construída no exercício contínuo da palavra.
Atemoia: quando a literatura entra no mundo corporativo
Outro livro que chegou ao Cafezim foi Atemoia, de Keichi Maruyama, vencedor do 8º Prêmio Cepe Nacional de Literatura, na categoria Conto.
O livro marca a estreia do autor na literatura e parte de uma experiência que ele conhece de perto: durante 15 anos, Keichi atuou como executivo e consultor no mercado financeiro e empresarial.
É justamente esse universo que ele transforma em matéria literária.
Em Atemoia, relações de poder, meritocracia, ganância, pressão psicológica, violência, invisibilização e desumanização aparecem por meio de personagens ligados a um edifício comercial de uma grande metrópole brasileira.
São 11 protagonistas e diferentes histórias que se cruzam nesse ambiente corporativo. Entre eles estão uma ascensorista que trabalha há duas décadas no mesmo prédio, executivos, funcionários de banco e pessoas quase invisíveis dentro de uma engrenagem na qual produtividade e lucro muitas vezes se sobrepõem às relações humanas.
Publicado pela Companhia Editora de Pernambuco, o livro propõe um olhar crítico sobre o mundo do trabalho e sobre a própria ideia de progresso.
E há algo especialmente interessante nessa estreia: Keichi não escreve sobre esse universo de fora. Ele participou dessa engrenagem e escolheu a ficção como caminho para transformar essa experiência em literatura.
Quando a África vira país, super-herói e futuro
Também chegou ao Cafezim o trabalho do autor baiano Anderson Shon, que apresenta, entre suas obras mais recentes, Estados Unidos da África, realizado em parceria com o artista Daniel Cesart.
A obra mistura quadrinhos e prosa para construir uma narrativa antirracista, contracolonial, panafricana e afrofuturista.
A pergunta que move a história é poderosa: e se a África fosse um país?
E mais: e se seu presidente fosse um super-herói?
É a partir dessa premissa que surge Rei Bantu, personagem inspirado em Serge Ekondo, um pedreiro nascido na República dos Camarões que, guiado pela entidade Mama Bamiléké, recebe a missão de enfrentar injustiças e sofrimentos sistêmicos vividos pelo povo negro.
A obra reúne referências a artistas e pensadores negros, passando por nomes como Conceição Evaristo, Mano Brown, Nelson Mandela e Bob Marley.
Estados Unidos da África recebeu dois Troféus HQ Mix em 2024 e ganhou uma segunda edição, revista e ampliada, com novo projeto gráfico e prefácio de Anne Quiangala.
E Anderson Shon tem ainda outra obra que merece ser mencionada: A Última Revolta Malê, HQ que mistura elementos históricos da Revolta dos Malês, ocorrida em Salvador em 1835, com uma investigação contemporânea envolvendo estudantes da Universidade Federal da Bahia e o crânio de Pacífico Licutan, uma das figuras ligadas à revolta.
São obras que mostram como a literatura e os quadrinhos também podem ser instrumentos de memória, identidade, reflexão histórica e imaginação de outros futuros.
Cordel, escola e a formação de leitores
E há uma história que me tocou especialmente porque une literatura, educação e formação de leitores.
É a trajetória da escritora e cordelista Veleida Costa, professora da Rede Municipal de Ensino de Fortaleza, graduada em Pedagogia e mestra em Educação pela UECE.
Desde 2014, Veleida desenvolve projetos de alfabetização e letramento utilizando a Literatura de Cordel com crianças do Ensino Fundamental I.
E foi justamente a sala de aula que a levou a se tornar cordelista.
Ao precisar trabalhar o gênero textual com seus alunos, percebeu que havia poucos folhetos com linguagem acessível e temas adequados para crianças entre oito e dez anos. Foi então que começou a escrever seus próprios cordéis.
O primeiro nasceu dentro da sala de aula, durante uma atividade em homenagem ao Dia das Mães. Veleida começou a escrever, ao vivo, um cordel sobre a vida de sua própria mãe, utilizando apenas um notebook e um projetor, enquanto os alunos acompanhavam a construção dos versos, das estrofes e das rimas.
A experiência cresceu.
Ela criou uma espécie de cordelteca em sua sala de aula e passou a utilizar a literatura de cordel para trabalhar diferentes temas com as crianças.
Em 2019, criou o blog Café, Cordel e Cuscuz, espaço dedicado à publicação e circulação de seus textos. Hoje, reúne mais de cinquenta cordéis publicados no blog, muitos deles produzidos originalmente para utilização em atividades pedagógicas.
Em 2024, Veleida lançou A Peleja da Bicharada, livro infantil escrito em cordel. A história é uma fábula em que os animais da floresta organizam uma competição. Cada prova revela habilidades, mas também limitações, levando o leitor a refletir sobre respeito e inclusão.
A obra ganhou uma segunda edição, ampliada e revisada, em 2025.
A trajetória literária da autora também inclui participação em coletâneas e antologias e a publicação de diversos folhetos, entre eles A invenção do mundo, Rinite e sinusite, A gente acostuma, O mosquito Aedes e Cearentemente.
E há um detalhe que considero muito bonito: Veleida também utiliza o audiovisual como ferramenta de formação de leitores. No canal Café, Cordel e Cuscuz, publica cordéis musicados, especialmente voltados à alfabetização e ao letramento.
Ou seja: o cordel, para ela, não está apenas no livro. Está na sala de aula, no blog, no folheto, no vídeo, na música e, principalmente, no encontro com a criança.
Um super-herói contra o bullying no Cariri
Do Cariri também chegou uma história que mostra como a literatura infantil pode ultrapassar as páginas do livro e chegar diretamente à sala de aula.
O escritor e professor pedagogo Thiago Mariano apresenta, neste mês de agosto, O Tempero, o super-herói que viaja no tempo, uma obra infantil ilustrada e totalmente colorível, que utiliza o universo dos super-heróis para conversar com as crianças sobre temas que fazem parte do cotidiano.
Bullying, violência, trânsito, poluição sonora, inflação e empreendedorismo aparecem na história de maneira lúdica, tendo como cenário Juá City, uma cidade fictícia criada pelo autor.
Na trama, um relógio cai sobre Tempero e lhe dá o poder de viajar no tempo. A partir daí, ele passa a enfrentar os problemas da cidade, mas sem recorrer à violência. O diálogo é apresentado como caminho para resolver conflitos.
E talvez esteja aí uma das características mais interessantes da obra: transformar assuntos complexos em histórias que possam ser compreendidas pelas crianças, utilizando personagens e ilustrações como ferramentas de aproximação.
As ilustrações também são de Thiago Mariano, que há anos utiliza seus personagens em sala de aula para ensinar conteúdos de forma divertida. O universo criado pelo autor inclui personagens como Açaígirl, capaz de criar e controlar açaí com as mãos, e o Homem-escola, apresentado como o homem mais inteligente do mundo.
Mas O Tempero não termina no livro.
Thiago também desenvolve um projeto social de combate ao bullying em escolas públicas de Juazeiro do Norte, com palestras educativas utilizando os personagens da obra. Cada escola participante recebe cinco exemplares gratuitamente para sua biblioteca.
A iniciativa já começou na Escola Tabelião Expedito Pereira, em Juazeiro do Norte, onde o próprio autor atua como professor do 1º ano do Ensino Fundamental.
A primeira edição comercial de O Tempero, o super-herói que viaja no tempo terá tiragem limitada a cem exemplares, numerados, assinados e dedicados.
E durante os lançamentos, o público também poderá conhecer Minhas Quatro Futuras Ex-namoradas, comédia romântica adolescente de fantasia ambientada no Cariri, publicada pelo autor em 2025.
Mais do que apresentar um novo personagem infantil, Thiago parece estar construindo um pequeno universo literário que nasce da experiência com as crianças e retorna para elas por meio da leitura, da imaginação e da educação.
Porque receber também é uma forma de compromisso
E é assim que termino o nosso cafezim de hoje.
Agradecendo a cada autora, autor, editora, assessoria ou leitor que dedica alguns minutos para enviar informações sobre um livro.
Nem sempre consigo transformar todos os materiais recebidos em uma pauta ou entrevista. A caixa de entrada cresce, os livros se multiplicam e o tempo, como sempre, corre.
Mas receber esses materiais é também receber um pouco do que está sendo produzido, pensado e escrito.
E, sempre que posso, faço questão de abrir esta janela para mostrar que há muita literatura sendo feita por aqui — e também para além das nossas fronteiras.
Esta coluna, o podcast Cafezim com Literatura e todos os espaços que conseguimos construir para falar de livros têm justamente esse propósito: aproximar autores e leitores, valorizar a produção literária e lembrar que, antes de tudo, literatura precisa circular.
Então, a vocês que me escrevem, enviam releases, sinopses, capas e histórias: muito obrigada pela confiança.
Esta é a minha forma de agradecer.
E que venham mais livros, mais autores, mais histórias e, claro, mais cafezinhos.
Semana que vem, tem mais!
Ver comentários (1)
Falar de Literatura e valorizar escritores que como vc diz "não estão no holofotes" é tão lindo! Precisamos de mais Mirelle Costa entre nós. Bora tomar mais cafezin com literatura !