“Trump recorre a falsidades para fortalecer o protecionismo, dando impulso à decadência do Império”, aponta o jornalista e historiador André Gattaz
Confira:
Ao apresentar as novas tarifas de importação nesta quarta-feira (2/abr), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, gabou-se de que esse dia não será esquecido jamais. E não será mesmo, pois com duas canetadas o imprevisível presidente inaugurou uma nova era de protecionismo para seu país, retomando os anos finais do século XIX. Naquela época o protecionismo foi importante para proteger a nascente indústria do país, porém foi abandonado após a Grande Depressão (da qual o protecionismo foi um dos vetores), em prol de uma maior abertura dos mercados mundiais aos seus produtos. Fundamentados numa pujante indústria e no desenvolvimento tecnológico de ponta, ao longo do século XX os Estados Unidos tornaram-se a maior potência econômica do planeta, exportando seus produtos industriais e serviços em troca da importação de produtos agrícolas, minério e petróleo dos países menos desenvolvidos.
O final do século XX e o início do XXI presenciaram a chamada “globalização”. Esta, mais do que representar a abertura dos mercados globais, foi caracterizada pela busca das grandes empresas estadunidenses (e do capitalismo central europeu e asiático) de produzir seus produtos em países com menor custo de mão de obra e insumos (especialmente na Ásia), de maneira a maximizar seus lucros. Para esse sistema contribuiu também o fim do padrão-ouro decretado por Nixon em 1971, fazendo com que os Estados Unidos pudessem emitir moeda sem lastro para pagar suas importações. Com isso seus cidadãos passaram a consumir cada vez mais os produtos de todas as partes do mundo (ainda que de marcas estadunidenses, europeias ou japonesas), em troca de um pedaço de papel esverdeado sem valor. Com o acúmulo deste, governos e empresários de todo o mundo passaram a comprar títulos do Tesouro dos EUA, que também vêm se transformando em papéis sem valor, uma vez que chegando a 35 trilhões de dólares (e crescendo), a dívida pública não poderá jamais ser paga. Ou seja: durante décadas os EUA trocaram produtos por dívidas.
Voltemos a Trump. Segundo ele, por décadas o país foi “saqueado, pilhado, estuprado e roubado por nações próximas e distantes, tanto amigas quanto inimigas” – quando na verdade foi o oposto que ocorreu, conforme vimos acima. Assim, o presidente decretou a tarifa de importação mínima de 10% sobre produtos de 126 países, e de tarifas de 11% a 50% sobre outros 59 países – conforme indicado numa tabela que demonstra o uso da mentira como estratégia de governo. Nesta tabela, aquilo que foi denominado como “Tarifas cobradas sobre os EUA” na verdade indica o diferencial entre as exportações e as importações do respectivo país para os Estados Unidos. Assim, um país que exporta US$ 100 bilhões ao ano, porém importa apenas US$ 10 bilhões, acabou sendo representado por uma “Tarifa” de 90% na tabela (sobre a qual os EUA oferecerão um “desconto” de 50%). Portanto, os países que têm maior superávit comercial com os EUA (ainda que países pobres ou em desenvolvimento) foram os mais prejudicados, tais como Vietnã e Camboja – onde são produzidos os tênis Nike que os estadunidenses tanto amam e consomem, mas que não são mercados significativos para produtos Made in USA, tais como os carros da Tesla ou Bourbon whiskey.
O receio de que as novas tarifas desencadeiem uma “guerra comercial”, no entanto, pode ser infundado, especialmente porque a imprevisibilidade e a arrogância estadunidense vêm levando os demais países a fortalecerem seus laços comerciais, de maneira a buscar mercados alternativos para seus produtos. Esse movimento soma-se ao fortalecimento dos laços multilaterais e a busca de alternativas aos títulos do EUA e ao dólar, que tiveram impulso após a exclusão da Rússia do Swift (o sistema de pagamentos mundial) e o bloqueio de seus recursos em bancos da Europa e dos EUA após a invasão da Ucrânia, e com o fortalecimento e crescimento dos BRICS. Mesmo a “retaliação” dos países prejudicados pode não ser interessante, já que a demanda por seus produtos continuará existindo, e quem pagará a conta será a população estadunidense, já que os importadores deverão cobrar do consumidor o custo extra da importação.
Há problemas também nos princípios da aplicação dessas novas tarifas. Um dos objetivos de Trump, que é reindustrializar os Estados Unidos, é contraditório ao objetivo de arrecadar impostos de importação para diminuir os impostos sobre a renda e o lucro das empresas, pois uma vez que os consumidores substituam os produtos importados, não haverá mais arrecadação com impostos de importação. Além disso a tal reindustrialização pode acabar não ocorrendo, ou ocorrendo de maneira muito lenta, já que o país ainda tem mão-de-obra e insumos bem mais caros do que no restante do mundo, além de estar sucateando sua educação, o que reflete na produtividade do trabalho e na inovação tecnológica.
Para o Brasil, apesar do esperneio de setores do governo e empresariais, a conta deve acabar ficando positiva, uma vez que será taxado “apenas” em 10% por ter déficit comercial com os EUA. Assim, os produtos brasileiros estarão entre aqueles com a tarifa mínima de importação, e podem ganhar mercado nos EUA, pois concorrem com produtos de países que foram taxados mais fortemente. Além disso, o choque de demanda nos EUA, com a provável diminuição do consumo, poderá levar a uma maior oferta mundial de todo o tipo de produtos, e a consequente diminuição dos preços – especialmente de produtos das economias mais afetadas pelo tarifaço: China e União Europeia.
As novas tarifas de Trump, a dívida crescente e impagável dos Estados Unidos, a progressiva fuga do dólar e dos títulos do Tesouro (evidenciada no aumento exponencial do preço do ouro no último ano), o sucateamento da educação e da pesquisa nos EUA (evidente no atual atraso tecnológico do país em relação à China), o abandono das organizações multilaterais, e finalmente o apoio incondicional ao genocídio israelense na Palestina – entre muitos outros fatores – evidenciam a derrocada do império estadunidense. E isto não mais é uma previsão teórica, baseada no conhecimento histórico de que todos os impérios algum dia tiveram fim, mas um processo visível e em plena ocorrência.
André Gattaz é jornalista, historiador e editor. Doutor em História Social pela USP. É autor de “A Guerra da Palestina” (Usina do Livro, 2003) e editor da Editora Pontocom