UFC oferece a palestra sobre o impacto da cultura letrada nas tribos Potiguara e Tremembé

Léo Mackellene, doutor em Educação (UFC/ULisboa) e mestre em Literatura (UnB). Foto: Divulgação

Léo Mackellene, doutor em Educação (UFC/ULisboa) e mestre em Literatura (UnB), ministrará palestra, às 10 horas desta quinta-feira (24), no Auditório José Albano, do Centro de Humanidades da UFC, no Campus do Benfica. O tema é “A Memória do Silêncio – O impacto da cultura letrada sobre os Potiguara e os Tremembé”, resultado de uma pesquisa de doutoramento desenvolvida no âmbito dessa universidade federal em cotutela com a Universidade de Lisboa, no período de 2021 a 2026.

O convite para a palestra vem no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal do Ceará, através da professora-doutora Elis Teixeira, e tem como público alvo todos os interessados no ensino de língua portuguesa, literatura, nas questões linguísticas e em como a língua pode se constituir mais do que como meio de comunicação, como sistema de classificação da realidade, contrastando, portanto, entre si, pela oralidade e pela escrita, duas formas de se guardar memória, de lidar com o mundo, com o outro e consigo mesmo. O trabalho transita ainda pela psicologia, antropologia, sociologia e história.

Pesquisa

A pesquisa analisa como a chegada da cultura letrada no Brasil, mas especificamente na Serra da Ibiapaba, impactou os povos de tradição oral no sentido do desenvolvimento de uma subjetividade subalternizada, da fundação de uma “memória envergonhada” e no estabelecimento de um sentimento de “auto-depreciação”; e de como o ensino de língua portuguesa provocou o que se vem convencionando chamar, nos debates decoloniais, de “ruptura epistemológica”, quando se estabelece, através da língua, uma nova relação do indivíduo com a realidade que o cerca, com a classificação e hierarquização de si e do outro, tendo como parâmetro o grau de inserção dos indivíduos nas práticas sociais da cultura letrada.

A pesquisa tem implicações nas áreas da linguagem, educação, história, antropologia, sociologia e filosofia e baseou-se em fontes históricas primárias, documentos que remontam ainda ao séc. XVI.

Pedagogia colonial

A pedagogia colonial foi uma pedagogia do silêncio. Todos os espaços da cultura letrada são espaços de silêncio: a sala de aula, a igreja, a biblioteca, o museu, o teatro etc. Isso amplia o conceito de “letramento”: de uma forma de sistematização do pensamento até a introjeção de valores éticos e estéticos eurocristãos que terminam por estabelecer como modelo de “pessoa bem educada” o indivíduo silencioso, de gestos comedidos, de fala baixa etc.

A memória do silêncio, atualizada a cada missa rezada, a cada lição de leitura e escrita ensinada nas salas de aula, revela-se, assim, como uma prática cultural de longa duração de cujo trejeitos acabam por denotar o grau de assimilação da cultura letrada pelos indígenas, seu lugar social, seu grau de integração na civilização letrada que se estabeleceu a partir das Grandes Invasões europeias no Brasil.

Nas palavras do professor-doutor Jorge Ramos do Ó, da Universidade de Lisboa, “O contributo deste trabalho para o avanço da História da Colonização Portuguesa, em geral, e da História da Educação em particular, apresenta-se como inovador tanto no trabalho de deslocamento conceptual quanto dos materiais empíricos sobre que se debruça. Seu plano teórico e suas opções metodológicas se sustentam com muita segurança em séries de fontes pertinentes, pouco conhecidas da historiografia tradicional e muitas são mesmo inéditas, colhidas fundamentalmente na Torre do Tombo e na Biblioteca Nacional de Lisboa, além do Instituto Literário Viçosense e da lendário Biblioteca dos Pinho. Quero terminar sublinhando o carácter excepcional deste trabalho. Nele se projecta de modo muito impressivo uma tese de doutoramento que, estou certo, marcará de forma singular os estudos nos domínios disciplinares em que se insere”.

SERVIÇO

*Palestra com Léo Mackellene

Centro de Humanidades da UFC – Audítório José Albano – Avenida da Universidade, 2762 – (85) 3366-7602

Horário – 10 horas

Atividade aberta ao público em geral.

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