“Uma lição histórica de Getúlio Vargas sobre prudência política diante de pressões externas e do risco de interferências contra a soberania nacional”, aponta o advogado Pedro Benedito Maciel Neto
Confira:
… “quando a circunstância não se mostrar garantida, o melhor a fazer é esperar, resistir, transformar o tempo em aliado, jamais descer do umbuzeiro antes da hora” (Getúlio Vargas)
Lira Neto, no seu “Getúlio – 1882–1930 – Dos anos de formação à conquista do poder”, conta que, em dada circunstância, enquanto seu pai confabulava com outros estancieiros debaixo do velho umbuzeiro, o menino Getúlio corria de fora para dentro de casa e de dentro para fora, com seu amigo Gonzaga, filho de ex-escravo.
Num dado momento, naquele verão de 1896, Getúlio esbarrou e derrubou do local de honra um quadro a óleo de Júlio de Castilhos, presidente do estado do Rio Grande do Sul, líder dos republicanos, partido do pai de Getúlio; o quadro, caído no piso da sala, apresentava a tela amarrotada e a moldura estilhaçada.
Não havia dúvidas: o menino Getúlio havia, durante as brincadeiras, derrubado o quadro, que era muito importante e valioso para seu pai, Manuel Vargas. Lira Neto escreveu: “…, destruir o quadro de Júlio de Castilhos, naquela casa, equivalia a um crime de lesa-pátria”. Para quem não lembra, Júlio de Castilhos era um herói que, sete anos antes, conspirara a favor da proclamação da República.
Getúlio sabia o que fizera e, ao ouvir o som das botas de seu pai, fugiu e escondeu-se na copa do umbuzeiro; Getúlio e Gonzaga ficaram ali, quietinhos, ouvindo o velho Manuel Vargas, colérico, ordenar que alguém trouxesse os dois diabinhos até ele.
Passaram-se horas, fez-se noite, a madrugada foi longa e, ao amanhecer o dia, Getúlio e Gonzaga, ainda na copa do umbuzeiro, observavam a mudança de humor de Manuel Vargas, que passou de colérico a preocupado com o sumiço do filho; pôde, inclusive, ouvir a mãe dizendo que o quadro estava velho, que precisava de manutenção etc.
Apenas quando Getúlio percebeu o choro de preocupação da mãe, dona Candoca, e a genuína preocupação de seu pai, ele decidiu descer do umbuzeiro, abraçar a mãe e sentir o alívio do general Manuel Vargas.
Décadas mais tarde, ao evocar a lembrança do fato, Getúlio dizia ter conseguido extrair dele um ensinamento: “quando a circunstância não se mostrar garantida, o melhor a fazer é esperar, resistir, transformar o tempo em aliado. Jamais descer do umbuzeiro antes da hora”.
O Império, sob a orientação de um mafioso mimado, depois do que fez na Venezuela, não terá qualquer acanhamento em atingir o governo Lula, interferir nas eleições de 2026, tomar nossas riquezas e apresentar qualquer justificativa absurda para tal; por isso, nessas circunstâncias, o melhor é não descer do umbuzeiro e deixar o Itamaraty trabalhar, assim como Getúlio deixou dona Candoca trabalhar por ele.
Pedro Benedito Maciel Neto é advogado, autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito”, Ed. Komedi, 2007