“Uma dupla estratégia” – Por Marcos C. Holanda

Marcos Holanda já presidiu o BNB e é PhD em Economia. Foto: Reprodução

Com o título “Uma dupla estratégia”, eis artigo de Marcos C. Holanda, engenheiro, PhD em Economia e ex-presidente do BNB. “Em meados da década de 1980, o governador Virgílio Távora teve uma intuição estratégica que poucos de seus contemporâneos compreenderam: o subsolo cearense guardava riquezas que poderiam industrializar o estado por gerações. Criou a Companhia de Mineração do Ceará — a Ceminas — com um objetivo simples e ambicioso: transformar minerais brutos em insumos industriais dentro do próprio território, agregando valor antes de exportar. A estatal não sobreviveu às turbulências fiscais das décadas seguintes. Mas a visão de Virgílio permanece atual”, expõe o articulista.

Confira:

A economia do século 21 repousa sobre dois pilares fundamentais: energia e minerais nobres. Sem energia barata, limpa e abundante, não há indústria competitiva, não há inteligência artificial escalável, não há transição energética. Sem minerais estratégicos como lítio, cobalto, nióbio, terras-raras não há baterias, não há semicondutores, não há a infraestrutura física do mundo digital. O Ceará tem uma oportunidade única de tomar proveito desse cenário. Para tal, precisamos de decisão política e estratégia competente, alertando que a primeira e voluntarismo não são suficientes. Uma visão estratégica e operacional realista e profissional é indispensável.

O Ceará é hoje um dos estados com maior potencial de geração de energia eólica e solar do planeta. O vento que varre o litoral cearense é constante, previsível e de alta velocidade, atributos raros mesmo em escala global. A irradiação solar no sertão rivaliza com as melhores regiões do Oriente Médio. Energia não precisa ser 100% renovável para ser uma vantagem competitiva. Precisa ser abundante, barata e limpa o suficiente para atrair novos negócios. A combinação de eólica e solar não é suficiente e a opção de baterias ainda não é competitiva em termos de custo. Precisamos de térmicas de gás natural. As térmicas não competem e sim complementam nossa energia verde.

Em meados da década de 1980, o governador Virgílio Távora teve uma intuição estratégica que poucos de seus contemporâneos compreenderam: o subsolo cearense guardava riquezas que poderiam industrializar o estado por gerações. Criou a Companhia de Mineração do Ceará — a Ceminas — com um objetivo simples e ambicioso: transformar minerais brutos em insumos industriais dentro do próprio território, agregando valor antes de exportar.

A estatal não sobreviveu às turbulências fiscais das décadas seguintes. Mas a visão de Virgílio permanece atual. O Ceará possui ocorrências mapeadas de minerais estratégicos — entre eles lítio, cassiterita, scheelita e rochas fosfáticas — em uma época em que esses recursos passaram de simples commodities a ativos geopolíticos de primeira ordem.

O erro seria tentar replicar o modelo estatal de 1985 em 2026. Não se trata de recriar a Ceminas. Trata-se de criar as condições para que surjam dezenas de Ceminas privadas — empresas cearenses e nacionais atraídas por uma regulação inteligente, por incentivos fiscais bem calibrados e, sobretudo, pela exigência de beneficiamento local como condição para a concessão de lavra.

Virgílio Távora olhou para o chão e enxergou riqueza. Os cearenses de hoje precisam olhar para o vento, para o sol e para o subsolo com a mesma clareza. A natureza já fez a sua parte. Cabe ao Ceará fazer a dele.

*Marcos C. Holanda

Engenheiro, PhD em Economia e ex-presidente do Banco do Nordeste.

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