“Uma noite inusitada” – Por Luciene Simões

Luciene Simões é escritora e artista plástica. Foto: Arquivo Pessoal.

Com o título “Uma Noite Inusitada”, eis um texto de Luciene Simões, escritora e artista plástica.

Confira:;

O garçon italiano, de pernas curtas, andava tão rápido que parecia ter rodas nos pés. Gritava e gesticulava com pratos e mais pratos nas mãos. Eu pedi um tinto. Ele sempre bradava que tinha que esperar 15 minutos no gelo, pois o restaurante ainda não tinha adega. Eu dizia: “Como é que pode um restaurante italiano não ter adega?”. Era sempre essa discussão.

O pianista solitário tocava “My Way” e o vizinho próximo à minha mesa reclamava do filé com um linguajar de chef.

O garçon trouxe o vinho no balde de gelo. Perguntei-lhe de qual região ele vinha. “Puglia”, disse ele.

Sempre tive vontade de conhecer essa região, o “salto da bota”. De lá para a Grécia, é um pulo… quatro horas num pequeno navio.

O “pernas curtas”, brincando, disse que o pianista era louco para conhecer a Itália, mas, que não ia aguentar um dia lá porque é muito sensível. Qualquer coisa chora. Ia levar muito tapa na cara: “Porque chora, pá…por que chora, pá…?” Todos gargalharam, inclusive, o pianista.

Perguntei ao músico se ele havia estudado na Uece ou UFC. Disse que era autodidata. Quando menino, havia estudado na Escola de Música do Ancuri do Frei Wilson. Surpreendi-me: “Ancuri??”

Conheci essa Escola em 1995. Os alunos confeccionavam seus próprios instrumentos. Eu estudava cinema na Casa Amarela, um curso de extensão da UFC. Íamos fazer um documentário sobre a Escola. Fizemos várias visitas in loco.

O Frei Wilson construiu a Escola inspirado na Arquitetura Bávara: um castelo lindíssimo. Na época, era a “menina dos olhos” do Cláudio Pereira. Na sua gestão á frente da Fundação Cultural de Fortaleza, Cláudio era um grande apoiador desse projeto da periferia de Fortaleza.  Infelizmente, a Escola foi abandonada pelas gestões seguintes por “falta de verba”.

A conversa estava boa, mas, o restaurante estava fechando, o pianista indo embora. Pedi a minha conta. Satisfeita por uma noite inusitada. Na saída, o garçon italiano bradou: “Grazie Signora! Arrivederci!!!”.

*Luciene Simões

Escritora e artista plástica.

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