Com o título “Uma Universidade com Tesão”, eis artigo de Mauro Oliveira, professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.
(A meus queridos capixabas Vanessa & Denio)
Confira:
Quando uma mesa-redonda sobre soberania digital se recusou a terminar.
Há universidades que estudam o futuro.
Há outras que resolvem construí-lo.
Foi o que aconteceu em 20 de agosto, na Universidade Federal do. Espírito Santo (UFES), durante o evento “Soberania Digital no Contexto Capixaba”.
Começou como uma mesa-redonda.
Terminou, ou melhor, teimou em não terminar, como o embrião de uma ação concreta pela soberania digital brasileira.
1. A provocação
A iniciativa nasceu do chefe do Departamento de Informática da UFES, professor Magnos Martinello, encontrando desde o primeiro momento a acolhida do magnífico reitor Eustáquio de Castro, que compreendeu o propósito da Caravana LF e a recebeu solenemente.
Outro movimento decisivo veio do diretor científico da FAPES, professor Celso Saibel, ao convidar o Serpro e o Governo do Estado para a construção da mesa-redonda.
Estavam juntos atores que nem sempre sentam à mesma mesa: Universidade, Governo, agência de fomento, empresa pública de tecnologia e sociedade.
Coube à Caravana LF provocar.
Levamos à mesa as ideias do artigo “Do pau-brasil à Soberania Digital”. E começamos com uma frase pouco acadêmica, mas suficientemente nordestina:
“Se oferecemos pasto ao gado digital, alguma coisa além do esterco precisa ficar por aqui.”
Datacenters estão chegando. Consumirão energia, água, território e infraestrutura. Receberão incentivos. Gerarão negócios.
Muito bem.
Mas precisamos negociar o que fica.
– Capacidade computacional para nossas universidades.
– Formação de gente. Pesquisa. Inovação.
– Transferência tecnológica.
– Desenvolvimento nacional.
Caso contrário, corremos o risco de repetir, em pleno século XXI, a velha história do pau-brasil:
a riqueza sai daqui; o valor é produzido lá.
2. Quando quatro apresentações viraram uma
Então aconteceu algo inesperado.
As quatro apresentações da mesa, preparadas de forma independente, pareciam capítulos de um mesmo documento.
Diagnósticos convergiam. Propostas se completavam. E as novidades trazidas pelo Serpro, revelando movimentos concretos da empresa em direção a maior autonomia tecnológica brasileira, deram materialidade à discussão.
A soberania digital deixava de ser substantivo.
Começava a pedir verbo.
A Caravana LF, com seu conhecido “entusiasmo compulsivo”, já havia insinuado no início que aquele encontro não poderia acabar apenas em aplausos, fotografias e certificados.
Precisava deixar alguma coisa. Foi então que surgiu uma ideia:
A Carta de Vitória.
3. A mesa que perdeu a hora
O evento avançou além do previsto.
A mesa-redonda teimava em não terminar.
E a fome começou a disputar espaço com a soberania digital.
Perdeu.
Porque, enquanto o debate continuava, a Carta de Vitória já começava a circular entre os presentes … e, sobretudo, nas veias do reitor Eustáquio, atento do início ao fim.
Foi quando aconteceu algo aparentemente pequeno, mas que, para mim, resume o significado daquele dia.
O reitor cancelou sua agenda da tarde.
Não marcou uma comissão para o mês seguinte.
Não pediu um relatório para posterior avaliação.
Não criou um grupo para estudar a possibilidade de criar outro grupo.
Cancelou a agenda.
E abriu o gabinete para a Carta de Vitória.
4. Uma Universidade com tesão
Ali estava a Universidade que gosto de ver.
Uma Universidade com tesão… no melhor sentido de sua energia, paixão, vontade de fazer acontecer.
Uma Universidade que revela sua plenitude quando consegue quebrar as amarras burocráticas de suas agendas.
Quando ousa.
Quando decide.
Quando percebe uma oportunidade e atravessa a porta antes que alguém convoque uma reunião para discutir se devemos atravessá-la.
A tarde tornou-se uma oficina no gabinete da Reitoria da UFES.
Pesquisadores, dirigentes e a competente equipe jurídica da Reitoria passaram a lapidar aquilo que nascera algumas horas antes.
A Carta de Vitória começava a ganhar musculatura institucional e a transformar-se no Manifesto de Vitória pela Soberania Digital.
O próprio reitor Eustáquio ofereceu uma metáfora poderosa para explicar aquela atitude: é preciso antecipar-se ao caos antes que ele se instale.
O Espírito Santo conhece, tragicamente, o preço de chegar depois. Mariana permanece como advertência de que há situações em que prevenir não é prudência administrativa.
É responsabilidade histórica.
5. A Universidade que não reflete: ilumina
É essa Universidade que emociona o contribuinte.
A instituição que respeita quem a mantém não apenas cumprindo seu contrato, dando aulas, publicando artigos ou preenchendo relatórios.
Mas criando.
Provocando.
Antecipando.
Assumindo riscos.
Uma Universidade que não se contenta em ser reflexo da sociedade.
Prefere iluminá-la.
Talvez seja esse o princípio tácito que atravessa a Universidade desde Bolonha, há quase mil anos: conhecimento não apenas para explicar o mundo existente, mas para ajudar a construir aquele que ainda não existe.
Foi isso que vi naquela tarde movimentada no gabinete da Reitoria.
Animada pelo tirocínio do anfitrião, pela competência de sua equipe e pela sinergia inesperada criada naquela manhã, começava a nascer algo novo.
Algo que encontra eco naquele desejo de Gilberto Freyre por um
Brasil mais tropical, mais fraternal, mais brasileiro…
capaz de pensar e agir partir de si mesmo, um Brasil que luta pela sua soberania.
6. Vitória não é apenas uma cidade
O Manifesto de Vitória pela Soberania Digital, ainda em construção, poderá ter muitas faces.
Será documento.
Poderá ser proposta de política pública.
Poderá abrir novas formas de cooperação entre Serpro, universidades, governos e instituições científicas.
Mas talvez seu significado maior esteja no modo como nasceu.
Vitória mostrou que ainda sabemos nos juntar para pensar o Brasil. E, melhor ainda, fazer alguma coisa depois de pensar: agir.
Por isso, Vitória ganhou naquele 20 de agosto um segundo significado.
Não apenas a cidade.
Vitória como verbo.
A vitória de uma Universidade que decidiu levantar o nariz acima do nível do mar, determinada como Santiago de
Hemingway, porque alguns horizontes só aparecem para quem tem coragem de se afastar da costa.
7. O retrato 3×4 no cantinho
Foi esse o sentimento que grudou em mim.
O que aconteceu na UFES é um retrato 3×4 do Brasil em que acredito.
O Brasil que fabrica aviões.
Que desenvolve tecnologia no pré-sal.
O Brasil do Pix e da urna eletrônica.
Da Embrapa e da Fiocruz.
Das universidades públicas, dos institutos federais e dos pesquisadores que continuam acreditando que ciência e tecnologia não são despesas.
São instrumentos de soberania.
Um Brasil que não quer apenas oferecer energia, água, território e dados para que outros produzam a inteligência do século XXI.
Quer participar dela.
Compreendê-la.
Produzi-la.
Governá-la.
E transformar inteligência em prosperidade para sua gente.
Talvez por isso o Manifesto de Vitória pela Soberania Digital seja maior pelo modo como nasceu do que pelas páginas que terá.
Nasceu de uma Universidade que ousou cancelar a agenda.
De pessoas que decidiram transformar uma mesa-redonda em ação.
De uma manhã que invadiu a tarde.
De uma conversa que teimou em não terminar.
É esse retrato 3×4 que precisamos mostrar aos nossos jovens.
E guardá-lo na carteira, naquele cantinho reservado às coisas que importam.
Obrigado, Vitória.
Há viagens que a gente faz.
E há viagens que fazem a gente.
Volto a Fortaleza melhor do que fui.