Com o título “Ver e enxergar”, eis um artigo da lavra de Totonho Laprovítera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.
Certa vez, ao assistir a um simpósio de psiquiatria, observei o momento em que o Dr. Valton Miranda foi recebido à mesa. Em seguida, a escritora Ana Miranda apresentou-se a ele de forma delicada e singular: tomou-lhe as mãos, conduziu-as até o próprio rosto e, enquanto isso, descreveu-se verbalmente. Emocionei-me – e explico a razão.
Minha avó Marianna vivia um grave problema de visão. Quando eu tinha por volta de vinte anos, ela, já beirando os oitenta, chamava-me, puxava-me para bem perto de seus olhos quase cegos e, com cuidado suave, deslizava as mãos pelo meu rosto. Seus dedos demoravam-se, percorrendo e decifrando o mapa das minhas feições. Era assim que ela me reconhecia; era assim que me lia.
Naquele gesto simples havia mais do que afeto. Havia presença, memória e um modo silencioso de dizer “eu te vejo”, mesmo quando os olhos já não davam conta do mundo.
Em resumo, aprendi: os olhos veem o mundo, mas é a mente – atravessada pela memória, pelo afeto e pela experiência – que verdadeiramente alcança o sentido das coisas.
Falando desses sentimentos, há algum tempo poetei ser pescador de sonhos nos mares das paixões; caçador ferido por um pássaro perdido. Viajante errante, cantador e cego, sem ver a luz do dia, nem a lua, nem as estrelas. Ainda assim, imagino rostos jovens e puros e, do escuro, nasce uma beleza que me faz enxergar.
Pois bem. A gente sabe que consolar é um gesto simples, desses que aliviam a aflição e ajeitam a alma de quem anda abatido. Foi nesse espírito que vivi um episódio, quando um problema sério na vista me pegou de surpresa. Corri ao médico e acabei operado de emergência.
Nos primeiros dias de convalescença, recebi a ligação do saudoso Chico Pio, amigo de muitas canções. Recém-saído de uma cirurgia, telefonou para me confortar – palavra boa também é remédio. Entre conselhos sobre hábitos saudáveis, críticas bem-humoradas a amizades tóxicas e confissões de exageros passados, foi compondo fé, riso e esperança. Falou de orações, de aprendizado, de caminhadas pelo corredor do prédio e até de golpes de karatê.
Quando falei minha dificuldade para enxergar, ele não hesitou: lembrou que a cegueira nunca impediu os grandes de verem o essencial. Citou poetas, cantadores, artistas que, mesmo sem a visão perfeita, jamais deixaram de criar. E ainda provocou: “Você pensa que Luiz Gonzaga enxergava bem? E Patativa?” Ri, reclamei do excesso de consolo, mas desliguei o telefone mais leve.
*Totonho Laprovítera
Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.