*Vorcaro, o encantador de serpentes” – Por Gera Teixeira

Gera Teixeira é empresário. Foto: Divulgação

Com o titulo *Vorcaro, o encantador de serpentes”, eis artigo de Gera Teixeira, empresário. “A sucessão é quase burocrática. Lava Jato. Americanas. Pirâmides digitais. Fundos milagrosos. Gênios do mercado que viram investigados antes de esfriar a última entrevista. O brasileiro já nem acompanha os fatos. Apenas troca os nomes. Sai um personagem, entra outro. Muda o banco, muda o operador, muda o PowerPoint, mas a música segue parecida”, expõe o articulista.

Confira:

Escândalo financeiro no Brasil já não produz indignação. Produz sono. Um sono meio cínico, meio vencido, desses que chegam quando a gente assiste ao mesmo episódio pela décima vez e já sabe até a fala do vilão antes de ele abrir a boca.

Daniel Vorcaro entendeu isso. Ou talvez tenha aprendido antes mesmo de entender.

Não vendeu apenas CDBs, carteiras de crédito ou promessas de rentabilidade. Vendeu pertencimento. Vendeu a sensação de estar do lado certo da porta, aquele lado onde as salas são climatizadas, os cafés vêm em xícaras pequenas, os sobrenomes circulam com naturalidade e os apertos de mão valem mais do que qualquer prospecto. No Brasil, credibilidade raramente nasce de balanço. Nasce de presença. De ser visto. De ser recebido. De parecer inevitável.

O sistema parece sempre precisar de alguém assim. Um homem que saiba circular entre banqueiros, senadores, fundos, gabinetes, bancos públicos, empresários encantados e autoridades distraídas. Alguém com a desenvoltura de quem nunca precisou explicar sua presença, porque, nesses ambientes, quem pergunta demais geralmente não pertence.

Vorcaro talvez não tenha criado essa engrenagem. Apenas descobriu qual flauta tocar.

E dançaram.

O que a imprensa foi mapeando em torno do caso, sem estabelecer crime para quem apenas aparece no entorno, e é preciso dizer isso com clareza, tem menos a forma de uma investigação isolada e mais a aparência de um organograma de prestígio. Governadores, dirigentes de bancos públicos, senadores, articuladores permanentes, operadores de bastidor, ministros das mais altas cortes, escritórios influentes e personagens que atravessam governos sem jamais perder o endereço dos salões corretos. Gente que parece sempre estar por perto quando há dinheiro grande circulando e responsabilidade pequena sendo distribuída.

Nada disso constitui imputação criminal. Mas constitui retrato.

E retratos, no Brasil, às vezes dizem mais do que sentenças.

O caso Banco Master talvez não seja apenas sobre fraude, liquidez, lastro ou regulação. Talvez seja sobre aquilo que um país inteiro precisa fingir não ver para continuar funcionando. Rentabilidades que não fecham nas contas. Relações entre público e privado tratadas como mera conveniência. Instituições que parecem operar como salas de espera para quem já sabe a senha. Gente importante entrando por portas laterais e saindo pela porta da frente com cara de quem apenas foi tomar um café.

A sucessão é quase burocrática. Lava Jato. Americanas. Pirâmides digitais. Fundos milagrosos. Gênios do mercado que viram investigados antes de esfriar a última entrevista. O brasileiro já nem acompanha os fatos. Apenas troca os nomes. Sai um personagem, entra outro. Muda o banco, muda o operador, muda o PowerPoint, mas a música segue parecida.

E talvez seja isso, não a queda eventual de um banqueiro, mas o gesto mecânico de substituir um nome por outro e seguir em frente, o que mais pesa. O país desenvolveu uma imunidade curiosa ao absurdo. Quando surgem suspeitas envolvendo bilhões, conexões políticas e instituições públicas, a reação já não é espanto. É reconhecimento.

Como quem passa todos os dias pela vitrine de um serpentário a caminho do trabalho.

No começo, ainda olha com medo.

Depois, com curiosidade.

Por fim, nem olha mais.

Apenas passa.

Gera Teixeira é empresário

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