“Vou pra Cuba!” – Por Mário Mamede

Mário Mamede é médico e ex-deputado estadual

Com o título “Vou pra Cuba!”, eis artigo de Mário Mamede, medico e ex-deputado estadual. “(…) o desgoverno Trump não tem nenhuma preocupação com a situação do povo cubano, que muito tem sofrido pelo bloqueio criminoso imposto há 64 anos”, expõe o articulista.

Confira:

Para falar sobre a situação de Cuba ou de qualquer país é interessante se conhecer com alguma profundidade um pouco da sua história. Chega do surrado chavão VAI PRA CUBA! que nada significa, usado como uma referência negativa e depreciativa.

Então, um pouco de história.

Na década de 1959, Cuba vivia sob a ditadura de Fulgêncio Batista, apoiada pelos EUA. Os índices de analfabetismo, miséria e prostituição eram altíssimos. Em 2 de dezembro de 1956, 82 guerrilheiros, a bordo do barco Granma, desembarcam em Las Coronas, na região Oriental da ilha cubana, objetivando a derrocada desse regime.

Lamentavelmente, a aproximação do barco foi percebida por helicópteros das forças armadas do ditador Fulgêncio Batista e atingidos por forte artilharia. Só restaram 12 homens, com grande perda de armas, munições, alimentos e combustível.

Escapando e fugindo como possível, os sobreviventes se reagruparam em Sierra Maestra, montanha na província de Santiago. Ao se reencontrarem, Fidel indagou a seu irmão Raul Castro quantas armas tinham , ao que Raul respondeu : 4 fuzis. De imediato, Fidel completou: “Eu tenho 7. Então temos onze fuzis . Fulgêncio Batista, que se cuide. A Revolução será vitoriosa!”

Somente homens de grande coragem, com inquebrantável determinação de libertar o país dessa ditadura que tanto sofrimento causou ao grande maioria do povo, poderiam ousar levar adiante em tais condições , a luta contra um exército constituído e bem armado. Foi o que aconteceu.

No primeiro de janeiro de 1959, os guerrilheiros e guerrilheiras, com forte apoio da população rural e urbana, entraram vitoriosos em Havana, após dois anos de intenso combate, pondo fim à ditadura de Batista. dando início a uma verdadeira revolução em que saúde e educação passaram a ser garantidas como um direito fundamental de todos os cubanos e cubanas.

No entanto, em 16 de abril de 1961, 1400 mercenários norte-americanos, da Guatemala e exilados cubanos bem armados, financiados pelo governo dos EUA e de mafiosos expulsos de Cuba, tentam invadir a ilha em Praia Girón. Sofrem acachapante derrota com 200 mortos e 1.200 prisioneiros.

Depois de uma longa negociação, os prisioneiros foram trocados, em dezembro de 1962, pela importância de 53 milhões de dólares em alimentos, medicamentos e equipamentos hospitalares. Sentindo-se humilhadas os EEUU aceitaram essa derrota.

Diante da possibilidade de novas agressões do governo norte-americano, Fidel Castro, buscou apoio da então União Soviética e foram instalados em Cuba bases de mísseis de médio alcance. Segue-se a grave “crise de outubro “ de 1962, com grande tensão então entre as duas potências da guerra fria, por conta dessa base militar russa na ilha.

Na difícil negociação, foi acordado que os EUA não fariam nem apoiariam nova agressão armada contra Cuba, e a União Soviética retiraria suas plataformas de lançamento de mísseis.

No mesmo ano, no entanto, acontece outra perversa agressão ao povo cubano: a decretação do bloqueio econômico pelo governo Kenedy, que continua e se agrava ao longo de seis décadas, causando privações de toda natureza. O bloqueio impede, até os dias de hoje, o acesso da ilha ao mercado internacional para compra de medicamentos, insumos hospitalares, roupa, calçados, material de construção, eletroeletrônicos, computadores, impressoras, além de restrições turísticas e outras mais.

Destaque-se ainda que, apesar do acordo, centenas de sabotagens causadas pela CIA (Central de Inteligência Americana ) e por mercenários residentes, financiados e protegidos na Flórida, aconteceram. Isso, sem falar em mais de 600 atentados planejados contra o comandante Fidel, frustrados pelo setor de inteligência da Revolução.

Outras informações sobre esses fatos podem ser obtidas no Memorial de La Denúncia, ou em sua página no Instaram. Lá quem acessar vai encontrar documentos confidenciais e top secret do governo americano com provas inquestionáveis de sabotagens e agressões graves contra Cuba.

Ou seja, a hostilidade à Cuba, pelo governo norte-americano, é um ato de vingança e perseguição numa ação genocida que acontece lentamente, à luz do dia, diante da anestesia e da omissão de países que formam a ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU) e signatários da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Por trinta e cinco (35) vezes, a Assembleia Geral da ONU aprovou, por amplíssima maioria, a decisão de suspensão do desumano bloqueio à pequena ilha caribenha. Mas a politica retaliatória norte-americana impede o fim do bloqueio por parte de outros países.

É caricato e cínico o governo Bush ter colocado Cuba como integrante do Eixo do Mal. O mesmo presidente que invadiu e bombardeou o Iraque com o argumento mentiroso de que aquele país tinha armas de destruição de massa. Cuba não tem armas atômicas, não enriquece urânio, não é centro de treinamento de terroristas, não tem terras raras e tem leis anti-drogas duríssimas. Cuba não é ameaça para ninguém.

Por outro lado , é impossível negar o imenso esforço feito após a revolução que, em dois anos, após uma cruzada cívica, acabou com o analfabetistmo no país e garantiu a saúde, transporte e alimentação para todos. Na Universidade de Cuba são formados médicos e profissionais de saúde que se fazem presentes em muitos países nas mais diversas tragédias humanitárias , prestando apoio na Ásia, América Latina , socorrendo a África na epidemia do Ebola e de AIDS, à Itália diante da assustadora gravidade da COVID, em muitos eventos dramáticos como o último terremoto no Haiti, onde as brigadas de saúde cubanas sempre são as primeiras a chegar e as últimas a sair.

Como Cuba pode ser ameaça para alguém se o última unidade militar foi fechada e adaptada para dar lugar à ESCOLA LATINO AMERICANA DE MEDICINA (ELAM), que vem formando jovens médicos filhos e filhas de trabalhadores de países irmãos sem qualquer ônus e sem buscar vantagens pecuniárias, garantindo a esses estudantes hospedagem e alimentação e formação médica de boa qualidade? São muitos os médicos e médicas do MST formados em Cuba.

Na verdade o desgoverno Trump não tem nenhuma preocupação com a situação do povo cubano, que muito tem sofrido pelo bloqueio criminoso imposto há 64 anos.

Mesmo enfrentando enormes dificuldades, Cuba não tem analfabetismo e todas as crianças e jovens têm a garantia de oito anos de escolaridade e ensino gratuito na universidade de Havana.

Seus indicadores de saúde são equivalentes aos da Suécia e do Canadá e a concepção do seu Programa de Saúde da Família tem sido implementado em vários países da América Latina e África.

O que eles desejam agora é retomar Cuba para transformá-la no que foi no passado: um grande centro de diversão, de resorts, de exploração sexual – inclusive de crianças e adolescentes, sem nenhuma preocupação com a dignidade e qualidade de vida de seu povo.

Quando alguém cheio de ódio esbraveja: “VAI PRA CUBA!!!”, informo que já estive quatro vezes na minha querida ilha, onde vivi bons momentos e também frequentei, por três meses, o Hospital Frank País, o principal centro ortopédico de Cuba, sempre muito bem tratado. Pretendo voltar, mais uma vez, para abraçar os muitos amigos-irmãos cubanos que tanto estimo e que têm um enorme carinho pelo povo brasileiro.

*Mário Mamede

Médico e ex-deputado estadual.

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