“Xô, Normose!” – Por Totonho Laprovítera

Totonho Laprovíítera: o contador de hstórias. Foto: Portal IN

Com o título “Xô, Normose!”, eis mais um conto da lavra de Totonho Laprovitera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

Confira:

Depois de entornar algumas ânforas de nepentes, deixei o pensamento se esticar pelas berços do mundo.

Lembrei-me de Cleópatra, da sua linhagem grega, e de como ela atravessou os séculos com o mesmo encanto das histórias que o tempo se nega a apagar. Logo depois, veio-me à lembrança Atlântida – a cidade inventada por Platão, envolta em mistério e silêncio, mais viva na imaginação do que jamais foi na realidade.

E assim, entre goles e lembranças, passado e mito se misturaram em meu copo parceiro – porque a bebida sabe mais do que eu sobre a eternidade das ideias.

Deixar o pensamento correr solto e descalço é sempre uma boa ideia. É permitir que ele sinta o chão da imaginação, sem pressa nem destino, apenas o prazer de ir. É quando as ideias respiram melhor, topam em lembranças, acham caminhos esquecidos e inventam outros. No fim, é assim que nascem as boas histórias – quando a razão afrouxa os sapatos e o pensamento se deixa andar leve.

De vez em quando, acordo cedo, com a cabeça fervilhando de ideias.
Sinto que não é coisa de inteligência, e sim de intuição – como se algo em mim despertasse antes do sol, pedindo espaço para existir. Nessas horas, deixo o pensamento seguir seu rumo, sem impor ordem nem lógica, apenas ouvindo o que vem do tutano, enquanto a razão ainda dorme e a criação já está de pé.

Diante dos meus preciosos devaneios, vem-me a feliz consciência da minha admiração pelo juízo dos doidos – sou doido por eles. Meu saudoso amigo Gaubi costumava dizer que eu os atraio. Se eu estivesse num estádio de futebol lotado e soltassem um deles, ele rodaria entre a multidão até me encontrar – sem nunca ter me visto – e se sentaria ao meu lado. Gosto dessa história. Ela me faz bem. Talvez diga mais sobre mim do que sobre eles.

Certa vez, fui tachado de “estar ficando goiaba”, só porque desenhava no escuro. Eu apenas experimentava um ensaio de cegueira – um exercício de sentir o correr do risco sem vê-lo, deixando que a mão falasse o que os olhos não enxergavam. Curiosamente, na ausência da luz, eu me percebia mais atento, mais voltado para dentro, como se o escuro alumiasse o que o claro escondia.

E quando me vejo, como de costume, diante de um papel ou de uma tela, sem a menor ideia do que vou desenhar ou pintar? É aí que a intuição toma conta de mim – aparece do nada, surpreende, atropela qualquer tentativa de mando. A razão, tadinha, só chega depois, tentando decifrar o que já nasceu pronto, como quem se atrasado a uma aparição.

Pois é… por enquanto, é só. No mais, xô, normose!

*Totonho Laprovóitera

Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

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Uma resposta

  1. Pela foto pensei que fosse o Tarcísio Matos.
    Ambos excelentes escritores!

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