Com o título “A via-crúcis de Ciro”, eis artigo de Demétrio Andrade, jornalista e sociólogo. “A oratória de Ciro, de reconhecida capacidade, é, ao mesmo tempo, sua cruz. Um artefato enorme que ele precisa carregar sem que ninguém perceba, porque guarda uma arrogância peculiar que, por vezes, soa como algo ultrapassado, parado no tempo”, expõe o articulista.
Confira:
Após as primeiras semanas de campanha e dois debates entre Elmano e Ciro, principais concorrentes ao governo do Estado, as estratégias eleitorais ficam evidentes e já é possível fazer algumas leituras preliminares – algumas óbvias e já esperadas – e análises de cenário a curto, médio e longo prazo.
Elmano, com a caneta na mão, se agarra à sua boa avaliação como governador para intensificar a divulgação do seu trabalho nesta gestão, com entregas de obras e serviços. Além disso, reforça intensamente a questão da dobradinha petista com o governo federal, apresentando-se como o candidato de Lula e surfando na popularidade do presidente no Ceará e no Nordeste.
Ciro, por sua vez, aposta na crítica aos resultados do governo, notadamente nas áreas de segurança, saúde e equilíbrio fiscal. Além disso, possui experiência e um histórico político de peso, que lhe garantem um vasto recall junto ao eleitorado. A pauta da segurança, inclusive, vem reforçada pelas características belicosas dos seus novos parceiros.
Mas é aí, justamente, que começam os problemas do “novo” tucano. A “ampla aliança” para “salvar o Ceará” guarda contradições evidentes e, para muitos, insustentáveis. Até o final da campanha, Ciro vai ter que se desdobrar para justificar seus ataques a Camilo Santana, que, até pouco tempo atrás, era considerado por ele “o melhor governador da história do Ceará”.
Além disso, após anos se apresentando como progressista, Ciro tem a inglória tarefa de tentar “normalizar” a aliança com a elite do bolsonarismo no Estado – que o engoliu em seco –, jurando que não apoia Flávio para presidente. Por outro lado, precisa segurar seu ímpeto verbal contra Lula – cujos inúmeros exemplos pululam nas mídias –, já que lhe interessa uma dissidência petista que o apoie.
Não bastasse isso, vive a desagradável situação de ter na sua chapa um candidato a senador – no caso, o Capitão Wagner – que organizou um motim que resultou em um tiro à queima-roupa no seu próprio irmão, Cid Gomes, que, por sinal, é também candidato a senador, só que pela situação, e com quem está – novamente – brigado.
Para piorar, aparentemente Ciro entrou no jogo apostando alto demais na sua capacidade retórica. No primeiro debate, na Bandeirantes, nitidamente sem preparo, foi surpreendido por um governador – vendido por ele e seus correligionários como “um poste” – que sabe o que diz e tem plena capacidade e qualidade para defender um projeto político que possui consistência administrativa.
No segundo, organizado pelo Grupo O Povo, Elmano mostrou tranquilidade e firmeza para responder com categoria a um adversário que não conseguiu conter, em alguns momentos, o seu tradicional destempero, chegando a cometer a deselegância de agredir verbalmente Camilo Santana, um filho do Crato, em um evento realizado em pleno Cariri.
Tem mais: hoje, parte considerável da nossa população não se deixa iludir por um político que fala bem, mas tem um discurso vazio de propostas, desconhece a real situação do Estado e tenta esconder suas falhas por meio de rompantes desnecessários. Isso agrada às bolhas bolsonaristas, mas não ao chamado “eleitor médio”.
Afinal, o Ceará teve a sorte de ter, em sua história recente, bons governantes – independentemente de ideologia, mas com espírito público. Ano após ano, o Ceará vem se destacando em áreas como educação, desenvolvimento econômico, agropecuária, inovação, logística, transparência e responsabilidade nos gastos públicos, redução da fome e da pobreza e geração de emprego e renda. É bastante provável que a parcela do eleitorado que tem consciência desse progresso não trocará avanços claros por aventuras verborrágicas.
A oratória de Ciro, de reconhecida capacidade, é, ao mesmo tempo, sua cruz. Um artefato enorme que ele precisa carregar sem que ninguém perceba, porque guarda uma arrogância peculiar que, por vezes, soa como algo ultrapassado, parado no tempo. Uma característica que encontra eco somente entre seus fãs de carteirinha, mas, principalmente – embora de forma desconfiada –, no baixo clero da política, onde esbravejam golpistas, misóginos, fundamentalistas, negacionistas e nostálgicos da ditadura militar.
*Demétrio Andrade
Jornalista e sociólogo.