“Aprendendo a brotar novos anos” – Por Ana Márcia Diógenes

Ana Márcia Diógenes é jornalista e escritora. Foto: Divulgação

“Ansiamos tanto que deixamos alguns brotos morrerem dentro de nós, antes de se jogarem no mundo”, aponta a jornalista e escritora Ana Márcia Diógenes

Confira:

Acordei em 2026 pensando em uma frase que escrevi nos stories do Instagram no penúltimo dia de 2025 e que a Vanice, que conheci virtualmente em uma oficina de microcontos, comentou: “isso dá uma linda crônica”. A frase a que ela se referiu foi “acho que as flores são os novos anos das plantas”. De lá para cá, fiquei ruminando a sugestão.

Mesmo diante da singularidade de comparar os reinos vegetal e animal, resolvi me arriscar a pensar no que podemos aprender com o que seria o novo ano no mundo vegetal. A planta, fixa no solo ou em um jarro, somos nós, corpo/mente em que fluem ideias, pensamentos, descobertas, conflitos. Na nossa caminhada de vida, projetamos a cada ano que este fluxo possa ser mais positivo que negativo. E sofremos por antecipação.

Nas plantas, a projeção se dá de forma orgânica. A depender da qualidade do solo, da quantidade de água que recebem e do sol, as flores vão naturalmente fluir. Dos brotos virão as flores que, após o viço, cairão. Serão seguidas de outras flores. Cada flor, nesta minha reflexão, é um novo ano marcado no corpo da planta, agregando multiplicidade e, ao mesmo tempo, demarcando transitoriedade.

As novas flores, assim como as expectativas das viradas de ano, são simplesmente impermanências. Sem uma matriz psicológica para sofrer se e quando a flor virá, a planta segue. Nós humanos, por vezes, emperramos. Ansiamos tanto que deixamos alguns brotos morrerem dentro de nós, antes de se jogarem no mundo. Esquecemos de aguar, de buscar claridade.

Por isso, quero seguir aprendendo com as plantas a linguagem das delicadezas, compreender as pequenas felicitâncias como impermanências naturais no processo de viver com o corpo na terra e a mente no céu. É na imaginação que os anos novos cultivam brotos em nós.

Ana Márcia Diógenes é jornalista e escritora

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