“A ansiedade de receber uma correspondência nas antigas caixas foi substituída por outra ansiedade: a de receber mensagens constantemente”, aponta a jornalista e escritora Ana Márcia Diógenes
Confira:
Dia desses, quando o semáforo fechou, parei o carro ao lado de um muro que tinha uma caixa de correspondência próxima ao número 1800. Tijolos e cimento fechavam o espaço em que um dia estava um portão. Para além de mais uma casa, que em breve deve se transformar em prédio residencial ou comercial, a cena me deixou pensando nas correspondências que podem ter sido deixadas lá e não encontraram o destinatário.

Se fosse alguns anos atrás, poderiam ser cartas de amor que ficaram sem respostas ou telegramas que perderam a urgência. As caixas de correspondência já há um bom tempo servem apenas para contas a serem pagas. E olhe lá. Quase todas atualmente são colocadas como débito em conta, para facilitar o cotidiano do usuário.
As caixas de hoje são nossos e-mails e WhatsApp. Tudo mais rápido e difícil de voltar para o remetente. Mudamos de computador ou celular, mas os endereços eletrônicos nos acompanham. Ao mesmo tempo em que essa agilidade gera conforto, sermos mais facilmente localizados faz com que recebamos mensagens a qualquer horário do dia ou da noite e em qualquer dia.
A ansiedade de receber uma correspondência nas antigas caixas foi substituída por outra ansiedade: a de receber mensagens constantemente. Coisas de um mundo em órbita tecnológica que nos faz ficar em constante aceleração mental.
Não sou saudosista e me adapto bem à tecnologia, mas confesso que deu vontade de escrever uma carta destinada a quem a abrir, sobre amores inesquecíveis e colocar na caixa. Quem sabe seja aberta por um dos operários que for trabalhar na obra, ele tenha boas recordações dos seus próprios amores e um dia para além do concreto?
Ana Márcia Diógenes
Jornalista e escritora