“Embora faça o país e erga o lar, onde quer que eu vá. Paredes e chão dependem de sentimentos”, aponta a jornalista e publicitária Tuty Osório
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Descobri há muitos anos que sou nômade. Acredito que toda a gente é, na verdade. O sedentarismo foi uma imposição dos modos de produção. Fixação ao território para o desenvolvimento da agricultura, sempre a busca de alimentos, desiquilibrada pelo fim do modo de vida coletivo. Há estudos, teorias e a concretude da desigualdade, constatando a perversidade que só se agrava. Ando por aqui e por ali carregando a casa nas costas, dentro de uma pequena mala, simbolizada em objetos dos quais não me separo. São as raízes aéreas que me seguem e fazem com não perca as referências. Embora faça o país e erga o lar, onde quer que eu vá. Paredes e chão dependem de sentimentos.
Amigos a gente encontra. Mantém, amplia. A amizade é sagrada. Por isso sou amiga da minha mãe, das minhas filhas, as da barriga e as que me adotaram. Filhas. Mãe tenho uma, a minha, a quem, por sorte e benção, atormento até hoje. Flor do deserto, a amizade é algo que se rega ou se mata na aridez do individualismo. E é preciso desindividuar-se. Outrar-se. Mais que nunca, é precioso unir para conseguir respirar profundamente. A superficialidade ilude, engana, trai sem saber que o faz, pois sequer sabe a que se propõe. Estou sempre a um passo da adequação. Olho receosa o Parquinho repleto de brincantes, em dúvida se saberei as regras.
Quantos são hoje? Não importa. Pode ser agora, pode ser depois. Pode ser agora e depois. Estar pronto é tudo. Diz Hamlet para concluir que o Resto é Silêncio. Porque estava preparado? Porque se viu só que é a nossa origem e o nosso destino, afinal? A despeito do caminho estar repleto de acenos. Muitos que abraçam, alguns que traçam a nossa vulnerável carência de acolhimento. Coberto, ou não, de nuvens, há um céu que nos protege. Que nos faz voltar, eternamente no que o eterno é possível. Falo do cotidiano, falo do inconsciente, que é quem nos comanda os desvarios, clamando para que o controlemos em seu mistério.
A casa vai comigo. Móvel, consistente, presente. Não me escondo, nem paraliso. Quando canso, choro muito e vou adiante. Nem sempre sei para onde.
Contudo, vou. Vamos, de preferência em bando de criação, aluvião, baldeação, mãos dadas, ou não.
Tuty Osório é jornalista, publicitária, especialista em pesquisa qualitativa e escritora. Lançou em 2022, QUANDO FEVEREIRO CHEGOU (contos); em 2023, MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA (10 crônicas, um conto e um ponto) e SÔNIA VALÉRIA A CABULOSA (quadrinhos com desenhos de Manu Coelho); todos em ebook, disponíveis, em breve, na PLATAFORMA FORA DE SÉRIE PERCURSOS CULTURAIS.
Em dezembro de 2024 lançou AS CRÔNICAS DA TUTY em edição impressa, com publicadas, inéditas, textos críticos e haicais