“Valeu ter amanhecido” – Por Tuty Osório

Ainda que não mais seja
Tuty Osório é jornalista, publicitária e escritora

“Desde sempre ouvi mulheres declararem preferir ser homens. Eu gosto de ser mulher, já comecei de novo muitas vezes”, aponta a jornalista e publicitária Tuty Osório

Confira:

Entre flores, manifestações, reflexões, atravessamos mais um março das nossas histórias. Dia 8 é o dia. Dia 5 participei de um evento em homenagem a mulheres escritoras. O Sarau das Musas, promovido pela artista Mona Gadelha, produzido por Maira Sales, com o patrocínio de Amanda Fonseca responsável pelo movimento de arte num lugar com cara de restaurante caseiro, delícias à mesa, oferta generosa aos comensais e bebedores de boa música, livros, artesanato. Lá, lemos nossos textos, gritamos os nossos protestos, teve até performance à anos 20 do XX, uma Pagu contemporânea coberta com um tule verde, declamando frases que pretendiam subverter uma ordem que mal sabemos com que rosto se apresenta. As mulheres seguem subjugadas, sob o manto de uma autonomia falsa de profissionais e chefes de família. Como lutar num tempo vazio de sentido, a intensidade roubada da pauta, substituída pela hipocrisia, pela superficialidade? Sem saber como, lutamos, todavia.

No aplicativo de Streaming relembro Malu Mulher com a minha mãe que se recupera de um acidente doméstico. Série de 1979, final de década, esmorecer da ditadura, debates sobre o feminino singular protagonizados pela mulher em processo de rebeldia. Em busca de si. Penso no que mudou em mim. O que a pretensa veterana tem a dizer à estreante. Percebo que nada mudou. Nem no meu coração, nem no que vai além da varanda verdinha do aconchego que morou em todas as casas que me emolduraram, desde que nasci. Até as que não lembro racionalmente, porque não tinha idade de memória. Também as plantas e as flores do jardim de apartamento inspiram como outrora. Protegida dos males, reproduzo o conforto nos conselhos às minhas filhas, como se de genética se tratasse. Não permitam desrespeito, não aceitem violência, devolvam os abusos sem vacilar. Vigiem, denunciem, assumam a indignação incômoda da consciência ativa.

Desde sempre ouvi mulheres declararem preferir ser homens. Eu gosto de ser mulher, já comecei de novo muitas vezes. Outras tantas tenho vontade de ter outra vida, ser outra pessoa, incorporar outra identidade. Sempre mulher. Começo cedo, não raro renasço com a manhã. Amo os dias comuns, sem sobressaltos, preenchidos pelas emoções óbvias da maternidade, da cumplicidade. Dias de guerras modestas sem devastação , nem morte.

Faça chuva ou sol, dias de luz que namora a cor, beija o capim orvalhado que se despede da noite. Que seja doce e breve o perfume do limão em gotas derramadas na melancia redentora da digna sede.

Nota: referência à letra da canção COMEÇAR DE NOVO, de Ivan Lins e Vítor Martins, lançada no final dos anos 70, na interpretação de Simone.

Tuty Osório é jornalista, publicitária, especialista em pesquisa qualitativa e escritora. Lançou em 2022, QUANDO FEVEREIRO CHEGOU (contos); em 2023, MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA (10 crônicas, um conto e um ponto) e SÔNIA VALÉRIA A CABULOSA (quadrinhos com desenhos de Manu Coelho); todos em ebook, disponíveis, em breve, na PLATAFORMA FORA DE SÉRIE PERCURSOS CULTURAIS. Em dezembro de 2024 lançou AS CRÔNICAS DA TUTY em edição impressa, com publicadas, inéditas, textos críticos e haicais

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