“80 anos não se resume em 5 minutos” – Por Beto Studart

“Nunca me furtei a viver os momentos da maneira mais intensa possível, porque viver pela metade é uma forma covarde de não existir”, aponta o empresário Beto Studart

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Chegar aos 80 anos não é alcançar um número, “número é um negócio estreito demais para caber a vida”. Chegar aos 80, agora que cheguei, sei: está mais para atravessar o tempo dando consentimento para que ele nos atravesse também, em um diálogo franco e aberto.

Durante parte da minha existência imaginei o tempo como algo que corria lá na frente, linha que precisava alcançar, como se mais adiante existisse um ponto de chegada capaz de justificar tudo. Mas não.

Compreendi com serenidade que, embora vez ou outra pareça uma eternidade, ele não está à minha frente, mas ao meu lado. Tudo tem seu momento de conhecer e acontecer e, quando entendemos isso, algo muda profundamente dentro de nós, pois deixamos de correr contra e passamos a caminhar juntos.

Se já tive pressa, acho que hoje quero andar mais devagar.

Ter essa consciência me libertou da ansiedade, do confronto, da culpa de não controlar o incontrolável. O tempo não nos persegue, não é algoz. Ao contrário, é aliado. Ele nos forma, nos transforma, nos educa com a paciência que lhe é própria. Minuto a minuto, hora a hora, ano após ano, a construção do que sou hoje valeu a pena porque fui sendo desenhado a cada etapa.

Nunca me furtei a viver os momentos da maneira mais intensa possível, porque viver pela metade é uma forma covarde de não existir. Sou uma pessoa extremamente grata e essa gratidão não nasceu da ausência de dificuldades. É resultado da convivência com elas, como contínuo processo de refinação da alma. De lapidação.

Aprendi a lidar com o tempo e fiz com ele um acordo: enquanto eu suportava as pressões da vida, ele me moldava pouco a pouco a partir dos desafios que me foram impostos; e assim, renascia, me renovava. Há momentos em que a vida nos coloca diante de abismos interiores, onde não se enxerga saída, nem sentido, nem direção e são nesses momentos que descobrimos algo essencial. A força não vem do caminho – ela nasce dentro de nós, como algo que foi cuidadosamente referenciado pela experiência.

Por isso, em mais de uma ocasião, me fiz metáfora, como um leão adormecido que, quando tudo parecia perdido, despertei com uma força que nem eu mesmo sabia que tinha. As dificuldades que atravessamos servem para fortificar ou fragilizar o nosso caráter e, consciente ou não, escolhi ser fortalecido – escolhi me reinventar. Ao olhar para trás, me vejo como um livro, não um livro de conquistas, mas de encontros. Afinal, não são os feitos que nos definem, são as pessoas que caminharam conosco, e que nos complementaram como peças de um quebra-cabeça a formatar a nossa existência.

Dedico todas as minhas conquistas à família, aos amigos e aos colaboradores. Se há algum mérito em minha travessia, não é individual, é coletivo, afetivo, pois são os valores que cultuamos que contribuem visceralmente para a felicidade e nos constroem como seres humanos.

Esses valores nasceram em mim dentro de casa, na relação familiar, no exemplo dos meus pais e da convivência com meus irmãos Vera Lúcia, Sara Rosita, Taís Helena, João Carlos, Arnoldo, Flávio. Com a família nuclear que teve papel profundo na construção de quem fui me tornando até aqui. Foram companheiros de infância, testemunhas de conquistas, descobertas e mudanças.

Hoje, se sinto falta da presença, as preencho com as memórias que ajudaram a dar um norte à minha história. Impossível dissociar a contribuição que deram ao meu desenvolvimento emocional, ensinando sobre partilha, conflitos e ternura, tornando-se parte essencial da formação de uma pessoa mais resiliente, empática e consciente de suas raízes.

A Ana Maria Studart, a quem profetizei que iria ser minha esposa logo no primeiro encontro, devo quase tudo. Estamos casados há 54 anos e descobri com ela a sensibilidade de me permitir, inclusive, chorar. Ana e meus filhos Deda, Patrícia, Renata, Karine e Giovana, representam alicerce essencial no curso de minha vida. Foram e são fonte de amor, apoio e aprendizado constante.

Se na infância tive os pais e irmãos como balizas, Ana Maria e meus filhos despertaram em mim a capacidade de escutar, compreender diferenças e praticar o cuidado constante. O processo natural de crescimento de cada um deles reforçou a importância da honestidade, do respeito e da perseverança. Descobri, nesse caminho, que os filhos não apenas aprendem com os pais, mas nos ajudam a nos tornarmos mais sensíveis e plenos.

Já disse que pretendo chegar aos 100 anos, mas através de Duda, Cecília e Rafael, Claudinha, Lara e Lina, Rebeca e Raquel, Gabriel e João, Biazinha e Laurinha, meus queridos netos, e incluo novamente a Giovana pela proximidade de idade, acho que posso estender um pouco mais esse desejo. Os netos trazem um novo brilho à vida, eles representam a continuidade da história, renovando esperanças e dando destino ao futuro.

A convivência com os netos nos proporciona alegria, leveza e a oportunidade de transmitir valores, experiências. Eles me ensinam ainda sobre o presente, com sua energia e curiosidade, tornando-se complemento especial a conectar passado, presente e futuro em uma mesma trajetória de tempo.

Falei sobre a infância, filhos, netos, mas dedico grande parte do que sou à fortaleza das relações que fui construindo na minha estrada. Me considero um ser que necessita de amigos sinceros e leais. A amizade é como terra fértil que sustenta cada passo da nossa jornada. É chão antigo, marcado por pegadas que o tempo não apaga, onde florescem memórias e afetos.

Mantenho com meus amigos raízes profundas, entrelaçadas pela vida, resistindo às secas e às tempestades. São presenças que lembram a força de permanecer, como rochas firmes diante dos ventos, pois quando o meu corpo e minha mente precisaram por algum momento se aquietar, foram nesse solo de vínculos que o coração encontrou abrigo. Guardo sobre a amizade um capítulo de paisagem viva, um horizonte que acolhe o passado e semeia a eternidade.

Empreender, para mim, nunca foi apenas gerar negócios, foi gerar sentido. Foi entender que pessoas não são recursos, são razões, e que toda convivência é uma oportunidade de crescer e avançar como ser humano. A disseminação do amor dentro da organização forma equipes verdadeiramente engajadas e ávidas por produzir, e isso não é teoria, é prática, é escolha diária.

Amar, especialmente no mundo dos negócios, é um ato de coragem, é aceitar como natural o processo de construir relações. O bom viver, o ser feliz, exige que se trabalhe e se trabalhe muito, e eu trabalhei muito. Com disciplina, com intensidade, com entrega, mas, acima de tudo, com objetivos claros. Nunca acreditei em conquistas vazias, porque se toda a luta pode ser o início de uma vitória, nem toda vitória faz sentido. Fui aos poucos compreendendo que vencer é permanecer inteiro, é não perder a essência no meio do caminho. É olhar para trás e reconhecer a própria trajetória sem precisar desviar o olhar de si mesmo.

Na busca pelos meus sonhos, nunca deixei de sonhar. Cultivar sonhos é inerente ao ser humano, o sonho transforma o dia a dia em uma aventura singular, e sem sonho, a vida perde densidade, perde cor, perde direção. Sonhar, para mim, será sempre um ato de resistência e talvez por isso ainda me sinta em movimento, inacabado, aberto.

Tenho muitos projetos e ideais, e isto me faz sentir como um jovem iniciante, a quem o futuro pertence. A juventude não está no tempo cronológico, está na disposição de continuar começando, se desafiando, e a vida me ensinou a mudar, a rever conceitos, a abandonar certezas que já não me convenciam de suas verdades.

Mudar de ideia quando as circunstâncias mudam é um ato de inteligência. A rigidez, muitas vezes, não é força, é medo disfarçado. E há algo maior que sustenta tudo isso, que é a fé. Não uma fé abstrata, distante ou teórica, mas uma fé vivida, experimentada, sentida em todos os momentos. Por isso, para superar um dia surpreendentemente desconfortante, é preciso acreditar no amanhã. Eu acreditei e continuo acreditando.

Se existe algo que essas oito décadas me ensinaram é que a vida não vem pronta, ela não nos entrega nada acabado, nós somos responsáveis por construí-la – como quem testa a própria existência. Escolha após escolha, recomeço após recomeço. Isso exige liberdade, mas, acima de tudo, responsabilidade.

Responsabilidade por quem nos tornamos, responsabilidade pelo impacto que deixamos na vida dos outros. Hoje, ao olhar essa caminhada, não vejo linha reta, vejo curvas, desvios, recomeços inesperados, nesse percurso é que fui sendo talhado, a ferro e fogo, pois não dá para controlar a vida. Precisamos confiar nela, nos entregando ao mistério de existir. Se eu pudesse deixar uma reflexão, diria que viver é aceitar essa condição profunda de ser, ao mesmo tempo, autor e aprendiz da própria história.

A boa semente, plantada e regada com carinho e respeito ao ser humano, é uma conspiração para o bem da humanidade. Se plantei algumas, já me dou por realizado. Amanhã, depois dessa festa, sigo, não como quem encerra um ciclo, mas como quem continua. Talvez com mais silêncio, com mais escuta, mais consciência, mas extremamente vaidoso porque para mim a minha história é única.

E, certamente, com uma gratidão ainda maior pela dádiva de existir. Porque existir não é apenas estar no mundo, mas responder, a cada instante, ao fato de estar nele, lapidando e sendo lapidado. Vivemos entre o que nos acontece e o que escolhemos fazer com isso. O sentido nasce nesse intervalo. Na decisão de continuar, de transformar, de dar significado ao que, à primeira vista, parece apenas acaso, como um processo contínuo de caminhar na vida.

Existir é assumir a liberdade – e o peso – de ser autor da própria história. É compreender que a vida não pergunta quem somos, mas espera, pacientemente, pela resposta que damos vivendo. E, se depois de tudo ainda me perguntassem qual é o sentido de existir, eu diria que é transformar o tempo que nos é dado em algo que mereça ser lembrado, não pela grandiosidade dos feitos, mas pela verdade com que foi vivido.

É sair da vida não como quem acumulou conquistas, mas como quem deixou marcas, porque, se não levamos nada do que temos, também é verdade que permanecemos em tudo aquilo, e todos aqueles, que fomos capazes de tocar. E é por isso que hoje não celebro apenas o que vivi – celebro o que ainda pulsa, o que ainda sonho, o que ainda acredito.

Celebro a vida como ela é. Imperfeita, intensa, desafiadora…e, exatamente por isso, extraordinária. E sigo. Com o coração em paz, a alma desperta, e a certeza profunda de que está, e muito, valendo a pena – porque o meu processo de lapidação existencial está em pleno andamento e não tem prazo para terminar.

Beto Studart é empresário

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