“A gente sabe que existe um modelo de mãe romantizado. Eu fui criada numa dubiedade enorme”, aponta a professora e jornalista Fátima Bandeira
Confira:
Eu sou mãe de duas mulheres e avó de um casal de netos. Sou casada há 36 anos com o mesmo marido. Sou dona de casa, jornalista e professora aposentada, militante política partidária e de movimentos sociais. No momento, também sou a gestora da Secretaria da Mulher da Prefeitura de Fortaleza.
Me pediram outro dia para falar sobre “Dia das Mães e Maternidade” eu fiquei pensando sobre como eu iria abordar esse tema aparentemente simples, mas efetivamente, tão complexo. Tão complexo que mais do que fazer um roteiro de fala, escrevi a fala completa.
E decidi começar falando sobre a mãe que eu sou – a estruturalmente tradicional. Sou “pata choca” – todo mundo debaixo das minhas asas; superprotetora – vendo minhas crias sempre como se continuassem crianças; alimentadora – quero todo mundo gordinho; que passa as noites acordada esperando estar todo mundo em casa para poder dormir; a mandona também – quero controlar a vida deles para ver se está tudo bem encaminhado. Enfim, uma mãe no modelo mais tradicional.
Mas, isso sou eu mãe. E a militante, principalmente a feminista? A gente sabe que existe um modelo de mãe romantizado. Eu fui criada numa dubiedade enorme. Porque eu sou a mãe, reflexo da minha mãe, que ao mesmo tempo que era uma mãe como eu sou hoje, me dizia que não queria que as filhas tivessem a mesma vida dela – que era leitora compulsiva e curiosa, mas não fez faculdade, que era brilhante, mas nunca foi trabalhar – éramos seis irmãos – que adorava tocar violão, mas nunca pode estudar porque era instrumento de “boêmio”. Mulheres, aquela época, só podiam estudar piano.
Foi essa mulher que me fez feminista. Que me criou para estudar, trabalhar, ser independente. Mas também foi o meu modelo de mãe. Deu nisso que sou hoje. Uma mulher “exausta” a maior parte do tempo, para dar conta dessa dubiedade. Embora, profissionalmente, razoavelmente bem resolvida, mas maternalmente permanentemente ansiosa e culpada.
A gente é criada, na maioria das vezes, para ser uma mãe perfeita, uma mãe ideal, na visão romantizada da maternidade, fruto de uma cultura patriarcal que nos colocou para o cuidado da casa, da manutenção da vida privada, da responsabilidade da família, da criação de nossas crianças. Ao mesmo tempo, a evolução da vida social nos colocou em outros lugares – no lugar do trabalho, um mundo pensado para os homens, desde a definição do horário comercial, ingrato com as mulheres. Para estar no trabalho precisamos acordar mais cedo que os homens porque temos que preparar o café, arrumar as crianças para o colégio e nos arrumar, lindas e maravilhosas, para nos apresentarmos bem no trabalho.
Essa é a rotina da maior parte de nós. No final do expediente, temos que correr para pegar as crianças na escola, preparar o jantar, ver as tarefas escolares e deixar as coisas mais ou menos encaminhadas para a rotina do dia seguinte. E no final de semana, fazer faxina, lavar roupa, fazer supermercado (quem tem esse privilégio) e ainda continuar linda e maravilhosa para acompanhar os maridos ou ficar em casa sozinha porque ele foi ao jogo ou saiu para encontrar os amigos. Tem exceções, tem, mas a regra geral é essa.
E aí vamos falar de um problema nosso recorrente: a culpa por não darmos conta de tudo. Se um filho está mal, nos sentimos culpadas. Somos muito rígidas conosco, nos cobramos demais. Se não temos o melhor desempenho no trabalho, a culpa também é nossa. Somos cobradas e precisamos trabalhar muito mais para provar que temos competência, que merecemos as promoções internas, melhores salários e tudo o mais que compõe a vida corporativa. Como conciliar o trabalho com a criação dos filhos e a valorização da mulher no ambiente corporativo?
Aí entra outra questão: saúde mental das mães como base para a família. Eu costumo dizer que não tenho tempo para ter “depressão” porque nós, mulheres, mesmo nessas condições, continuamos a nos culpar. Claro que é só uma forma de desabafo, depressão é uma doença muito grave que afeta mulheres com o dobro da frequência em comparação aos homens, frequentemente influenciada por dupla jornada de trabalho, violência, fatores sociais, mas também quero ressalvar, algumas vezes agravados também por oscilações hormonais muito mal entendidas e descontextualizadas – ciclo menstrual, gravidez, menopausa…
Mas quero falar também sobre maternagem. A noção de que a maternidade não pode e não deve ser só das mulheres. A maternagem aborda o conjunto de cuidados físicos e afetivos necessários para o desenvolvimento saudável do bebê ou de quem precisa de cuidados, focado na criação de um vínculo seguro. Diferente da maternidade biológica, a maternagem é um processo contínuo e prático de acolhimento que pode ser exercido por qualquer cuidadora ou cuidador, ressalvado que não estamos falando de cuidadores/as profissionais. A maternagem pode ser do pai, dos avós, de tios, padrinhos e madrinhas capazes de estabelecer vínculos afetivos permanentes.
Como eu disse, pratico a maternagem com meus netos desde muito pequenos. Entendendo a maternagem como função psíquica, espiritual e arquétipo de cuidado, não apenas biológico.
Então vamos pensar sobre a mudança estrutural e cultural da necessidade de conversarmos sobre igualdade de gênero. A necessidade de debates sobre a divisão sexual do trabalho, impacto da tecnologia e o equilíbrio entre a vida profissional e a criação dos filhos, sobre quem somos depois da maternidade, sobre a importância da retomada da identidade da mulher e seus projetos pessoais.
Tem uma psicóloga potiguar que conversando com trabalhadoras da indústria destacou a necessidade de termos expectativas mais realistas, praticarmos a auto aceitação, reconhecer nossos limites, estar alinhada aos nossos próprios valores, regular nossas emoções e priorizar o autocuidado, como as principais práticas para alcançar um equilíbrio interior e melhor conduzir nossas vidas. Reconhecer nossas limitações físicas, mentais e de tempo, abrir mão do controle total das situações e entender que a maternidade é um constante aprendizado que exige a flexibilidade para mudança de rotas.
Entender a maternidade não idealizada, mas como uma oportunidade de aprendizado pessoal, crescimento e reinvenção. Entender que a maternidade é um aprendizado diário e que ser amada (pelos filhos) independe da perfeição.
Isso é fácil, não. Mas como disse, é um aprendizado constante e uma luta permanente pelos direitos humanos de podermos ser também mulheres e não só mães. Entretanto, falar de mães é falar de filhos e vou terminar com um a primeira estrofe do “Poema Enjoadinho”, do poetinha Vinicius de Moraes,que me representa muito como aquela mãe que disse a vocês que sou, no início desse texto:
Filhos… Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo…
Fátima Bandeira – mãe, avó, jornalista, ex-professora da UFC e secretária da Secretaria Municipal da Mulher da Prefeitura de Fortaleza