Com o título “Inteligência artificial, empobrecimento cultural humano e panaceia generalizada”, eis artigo de Valdelio Muniz, analista judiciário (TRT7), mestre em Direito Privado (Uni7), professor de Processo do Trabalho (FADAT), jornalista e membro do Grupo de Estudos em Direito do Trabalho (GRUPE) da Universidade Federal do Ceará.
Confira:
Você acredita em “solução milagrosa para problemas complexos”? Pois bem. Este é, segundo o dicionário, uma das definições para o termo panaceia. Tem um uso praticamente universal, ou seja, aplicável a diversos campos. Mas, excluídas as crenças de viés teológico-religioso em torno de milagres, em respeito aos mistérios infinitos que há entre o céu e a terra, o ceticismo me acompanha diante de respostas pretensamente racionais materializadas em termos tecnológicos, especialmente em inteligência artificial-IA.
E, não, não se trata de mera resistência jurássica aos avanços da informática, da telemática e de toda a parafernália que a elas se soma. Trata-se muito mais de preocupação (ou desencanto) com o grau de idealização (para não dizer, endeusamento) com que muitos gestores (públicos e privados) têm se rendido à adoção de aplicativos, ferramentas e (pseudo)soluções calcadas em IA. Alguns, parece que convencidos de que demonstrarão, pelo menos, estar antenados com a pós-modernidade. Outros, talvez um pouco mais confiantes de que ela realmente vai resolver seus problemas. Todos, me parece, excessivamente otimistas.
Sim, a inteligência artificial de que tanto se fala hoje em dia tem alcançado patamares evolutivos expressivos frente aos primeiros estudos a que tantos se dedicaram décadas atrás. Merece, por isso, profundo respeito. Mas, o problema, ouso arriscar, não está, de modo algum, nas tecnologias aperfeiçoadas por IA e, sim, no despreparo com que parte significativa dos seus destinatários (usuários) com elas costumam lidar e, pior, nas consequências que seu uso abusivo e distorcido tem provocado e ainda pode provocar.
Exemplos não nos faltam. Vimos cotidianamente em notícias que mais parecem fatos inusitados ou nas vivências de cada profissão ou instituição. Erros médicos, falhas jurídicas (judiciais), desvios éticos, fraudes acadêmicas. E, sempre em paralelo, terceirização da culpa à própria tecnologia como cortina de fumaça para ofuscar a preguiça e a acomodação humanas, afinal de contas, “não disseram que a tecnologia veio para nos ajudar?”.
Pois é. Mas, o problema pode estar aí. Na formação cultural de quem não compreende que a ajuda de máquinas programadas pela alimentação humana de rotinas, respostas e procedimentos que as tornem mais “inteligentes” não pode ser entendido como substituição do próprio homem. E de quem não entende que a lei do menor esforço pode ter altos custos, seja na proteção de direitos, seja na preservação de vidas ou mesmo na construção de novos conhecimentos.
No campo jurídico, em particular, vê-se que a utilização de IA tem sido apregoada como a fórmula ou tábua de salvação para um contexto de litigiosidade cada vez mais crescente em que os cidadãos (chamados de jurisdicionados) esperam respostas mais rápidas (não propriamente, mais adequadas). Ignora-se (ou finge-se ignorar), sem explicação racional plausível, as causas desta litigiosidade e as razões complexas da lentidão e até mesmo a qualidade da resposta entregue, ainda que não com a duração razoável esperada.
Diz-se, com relativa razão, que toda justiça que tarda é falha. Mas, quem se atreve a dizer que toda justiça rápida é, de fato, justa? Parte expressiva das experiências de uso de IA que se têm propagado, em grande escala, no âmbito judicial, se mostram preocupantes e desafiadoras e, quando ganham as redes sociais, geralmente em razão de suas falhas ou mau uso, nunca vêm acompanhadas de uma mínima contextualização sobre o modo como têm sido impostas ou excessivamente “estimuladas”.
Os acertos (ganhos) decorrentes do uso de IA, quando verificados, são sempre “institucionais”, mas os erros na sua utilização são, em regra, altamente pessoais. E, em meio a tudo isso, resta uma aparente descrença de que alguém ainda possa, de fato, ser capaz de fazer qualquer coisa boa sem recorrer à IA. E mesmo que o faça, parece não ter valor se não for com a mesma velocidade e quantidade entregue pela IA.
Uma concepção perigosa e desestimulante para a preservação do mínimo de inteligência natural cujo fim é um empobrecimento cultural da humanidade. Repito, não por culpa da IA, propriamente, mas do modo como a enxergamos e das expectativas excessivas que nela depositamos em total desprezo à complexidade dos problemas para os quais ela é convocada e apresentada como panaceia. Ou tudo isso é mero desabafo?
*Valdelio Muniz
Analista judiciário (TRT7), mestre em Direito Privado (Uni7), professor de Processo do Trabalho (FADAT), jornalista e membro do Grupo de Estudos em Direito do Trabalho (GRUPE) da Universidade Federal do Ceará.