“A Praia de Iracema está se consolidando, quase silenciosamente, num raro ecossistema urbano onde ciência, arte, turismo, juventude, tecnologia, cultura e inovação começam a se entrelaçar de forma orgânica”, aponta o professor Mauro Oliveira
Confira:
Há ideias que nascem prontas. Outras começam a acontecer quase por gravidade histórica, enquanto seguimos acomodados no confortável berço esplêndido analógico, sem percebermos a turbulência digital que, sorrateiramente, reorganiza o mundo.
O recente artigo do economista Marcos Holanda, “Um Porto Digital no Mucuripe” (27/05/26), provoca uma reflexão necessária e urgente ao defender a transformação do Porto do Mucuripe em um polo voltado à economia criativa e à IA. A ideia é instigante.
Marcos percebeu corretamente a direção da maré … mas talvez já exista um cais mais promissor para atracar.
A Praia de Iracema está se consolidando, quase silenciosamente, num raro ecossistema urbano onde ciência, arte, turismo, juventude, tecnologia, cultura e inovação começam a se entrelaçar de forma orgânica, algo que dificilmente nasce apenas de concreto, renúncias fiscais ou discursos protocolares.
Está tudo pronto por aquelas bandas. Ou quase.
Na ponta do quadrilátero estratégico de Iracema, o SEBRAE está finalizando a Monsenhor Tabosa como um corredor de inovação. Diametralmente, o Planetário Rubens de Azevedo, o melhor da América Latina, continua seu “pulsar Dermevalniano”, mesmo quando o corpo “Dragão do Mar” tem recaídas.
Mas a transformação não para ali. O LABOMAR, em plena “erupção” no Poço da Draga (todo dia passo lá de bicicleta), surge como um Netuno de ciência e conhecimento. É o futuro Campus Iracema (“UFC é para sempre”) prometendo algo raro no urbanismo brasileiro contemporâneo: integrar universidade, o universal na cidade, um ecossistema vivo.
Como profetizou n’O POVO o magnífico Custódio Almeida, ali estarão também o Instituto de Cultura e Arte da UFC e mais de 3 mil alunos. Não se trata apenas de expansão universitária, mas de uma mudança no metabolismo urbano da própria Iracema.
Poucas cidades do mundo conseguem produzir espontaneamente essa mistura holisticamente saudável. E talvez esteja aí a principal diferença entre um simples parque tecnológico e um verdadeiro CAIS Digital: parques tecnológicos podem ser construídos. Ecossistemas vivos precisam emergir.
No coração da “aorta Iracema”, empresários já começam a erguer um novo CAIS, uma vitrine da inovação cearense que dialoga diretamente com essa nova centralidade digital. Não mais uma inovação enclausurada em condomínios corporativos isolados da cidade, mas integrada ao cotidiano, à arte, ao turismo, ao encontro humano.
E o mais espetacular: todo esse quadrilátero está “arrodiado” pelo Centro histórico de Fortaleza, que há décadas busca novas dinâmicas para além do comércio tradicional e que agora pode voltar a respirar cultura, inovação e economia criativa, conectado à juventude. Ao mesmo tempo, esse território se integra naturalmente ao complexo da Beira-Mar, o maior corredor de convivência, turismo, esporte, arte e vida urbana do Nordeste.
Poucas cidades possuem uma continuidade territorial tão poderosa:
Iracema. Dragão. Centro. Universidade. Arte. Ciência. Beira-Mar.
Um grande CAIS Digital vivo de inovação onde cultura, conhecimento, criatividade e tecnologia começam a se entrelaçar na construção de uma Fortaleza mais de todos, mais Iracema.
Tudo praticamente no mesmo tabuleiro urbano. Talvez o grande desafio já não seja mais criar um “Porto Digital”, mas perceber que ele já começou a emergir em Iracema de forma muito mais humana, criativa e orgânica.
Recife teve a coragem de reinventar seu antigo porto. Fortaleza talvez precise só enxergar o CAIS que já existe.
Um CAIS Digital em Iracema.
Afinal, “o novo sempre vem”
Mauro Oliveira
Professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações