Com o título “O discurso e a prática no combate ao PCC e ao CV”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, desta segunda-feira, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “(…) a questão central não é como essas organizações são chamadas, mas se as medidas adotadas são capazes de reduzir seu poder real. Sem essa preocupação, o combate ao crime corre o risco de repetir roteiro já conhecido, que é muito discurso e pouca transformação, servindo mais para eleger falsos salvadores da pátria, que não passam, na verdade, de entreguistas de terceira categoria”, expõe o colunista.
Confira:
A decisão do governo de Donald Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas foi recebida por muitos como gesto firme no enfrentamento ao crime organizado. Na superfície, de fato, parece medida contundente. Na prática, porém, levanta mais dúvidas do que certezas quanto a sua efetividade e sobre os critérios que a sustentam.
Não há discussão quanto à gravidade das ações dessas facções no território brasileiro já há algum tempo. São organizações criminosas que desafiam o Estado, movimentam bilhões e espalham violência dentro e fora das fronteiras brasileiras. O problema está em transformar o diagnóstico correto em solução simplista, como tentam fazer crer setores da sociedade brasileira, como se especialistas fossem em problema tão complexo.
A experiência recente da política externa norte-americana, nesse sentido, recomenda cautela. Nos conflitos envolvendo Israel e Gaza, nas ações contra o Hezbollah no Líbano e nas tensões com o Irã, muitas vezes o discurso político foi marcado por certezas absolutas que não encontravam o mesmo respaldo nos fatos. Narrativas convenientes acabaram prevalecendo sobre análises mais objetivas da realidade.
O risco é que algo semelhante ocorra agora com o Brasil. Chamar PCC e CV de organizações terroristas produz impacto político e midiático imediato, mas não altera automaticamente os mecanismos que sustentam essas estruturas. O tráfico de drogas, a lavagem de dinheiro, a corrupção e a fragilidade institucional continuam sendo os verdadeiros pilares do poder dessas facções.
Mais do que nova classificação jurídica, o combate ao crime organizado exige inteligência financeira, cooperação internacional, fortalecimento das polícias e aperfeiçoamento do sistema prisional. Sem isso, qualquer medida corre o risco de se tornar apenas mudança de rótulo, angariando apoio popular, mas que não conseguem produzir efeitos concretos.
De outro lado, também é necessário nessa discussão, se evitar que a política de segurança seja capturada por interesses eleitorais. O endurecimento retórico costuma render manchetes e aplausos, mas raramente substitui políticas públicas consistentes. O enfrentamento ao PCC e ao CV demanda firmeza, mas também objetividade. Quando o discurso se distancia da realidade, a tendência é produzir mais simbolismo do que resultados.
E o crime organizado, que prospera justamente nas brechas entre a retórica e a ação, agradece. Sabe-se muito onde esse crime se incrusta, não faltando exemplos de tentáculos na política, por exemplo, nas polícias e no mercado financeiro, como restou provado em recentes ações da Polícia Federal. Da mesma, vê-se que o crime se profissionalizou tanto, que é possível perceber sua diversificação para segmentos econômicos, com suspeitas até de ganhos em licitações públicas e financiamentos a filmes de qualidade duvidosa.
No fim das contas, a questão central não é como essas organizações são chamadas, mas se as medidas adotadas são capazes de reduzir seu poder real. Sem essa preocupação, o combate ao crime corre o risco de repetir roteiro já conhecido, que é muito discurso e pouca transformação, servindo mais para eleger falsos salvadores da pátria, que não passam, na verdade, de entreguistas de terceira categoria.
*Luiz Henrique Campos
Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.