Com o título “TERRABRAS & ENERGIA-BR: A Prova dos Nove da Soberania”, eis mais um artigo de Mauro Oliveira, professor do IFCE, PhD em informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.
Confira:
1. Duas Notícias, Um Recado
Em dois artigos anteriores, defendemos um “óbvio ululante”: quem controla o processamento controla o poder. O Vietnã mostrou que isso não é teoria. É decisão política.
Esta terceira peça do tabuleiro veio em dois episódios recentes. Trump compartilhou na “sua Truth Social” uma reportagem da Newsmax: a eleição brasileira de 2026 seria “o próximo grande teste” da América Latina. Dias depois, o Escritório de Comércio dos EUA voltou a atacar o Pix, acusado de restringir a concorrência das bandeiras americanas.
Duas notícias… um único recado. Quando uma potência elege um tema como moeda da vez, é porque ele virou estratégico. O Pix ameaça o monopólio dos cartões internacionais. As terras raras sustentam as cadeias produtivas do século XXI. Mudou o objeto da disputa: antes, rotas e petróleo; hoje, minerais, energia, dados e processamento.
Curiosamente, o mesmo governo que endureceu com o Brasil recuou diante da China quando Pequim restringiu a exportação de terras raras. O obstáculo, disse Trump, “desapareceu”. A China não cedeu nada. Só mostrou os dentes, afiados, feito faca na mão de Lampião, o Rei do Cangaço.
2. Duas Excentricidades e um Roteiro
O Brasil não está condenado à dependência tecnológica. Já provou o contrário: a Petrobras transformou um importador de petróleo em potência energética; a Embraer levou a engenharia nacional ao posto de terceiro maior fabricante mundial de aeronaves comerciais.
O outro lado da moeda histórica também já foi contado. Malha ferroviária brasileira desmontada, Gurgel abandonado com seu carro nacional, políticas industriais interrompidas a cada ciclo eleitoral: o problema nunca foi falta de inteligência. Foi falta de uma política pública continuada que acreditasse nas universidades e empresas brasileiras.
O Brasil tem genialidade para criar. Tem alergia a sustentar.
3. O “Carro Peba” Que Virou Limusine
O Vietnã mostrou como fazer das terras raras uma estratégia do país. A Coreia do Sul ensina algo mais amplo: nenhuma grande economia industrial nasceu da mão invisível do mercado. Os Estados Unidos protegem sua indústria nascente.
A Coreia combinou crédito direcionado, proteção temporária e transferência de tecnologia. O resultado todos conhecem: o “carro peba” sul-coreano dos anos 1970 hoje disputa mercado com alemães, japoneses e americanos.
A Industrialização nunca foi acaso. Sempre foi estratégia. E a mão invisível de Adam Smith, sozinha, nunca refinou um grama de neodímio.
4. Os Irmãos Karamázov da Nova Guerra Fria
Há algo de literário na disputa entre Estados Unidos e China… e o material é russo. Dois “irmãos” brigam pela herança da velha ordem mundial dos mercados, rotas, hegemonia. Repartem, no inventário,: as terras raras mundiais, a energia limpa e o território dos outros.
Mas há também o irmão bastardo, silencioso, que observa a partilha sem assento à mesa, ausente de todos os testamentos. É o Sul Global. Tem o que os “irmãos” desejam, mas nenhuma cadeira na negociação do próprio patrimônio.
A pergunta não tem resposta fácil: haverá, entre os fornecedores de matéria-prima da era digital, alguém disposto a largar a bandeja? Ou seguiremos servindo à mesa da partilha, esperando que um dos irmãos, por cansaço ou cálculo, nos devolva apenas o troco da nossa própria herança?
5. A Prova dos Nove Que o Brasil Não Faz
Existe uma regra não escrita, conhecida por qualquer estudante que decorou o “manual do Jeca Tatu” na véspera do ENEM: economia de commodities não passa na prova dos nove. Quem vende matéria-prima bruta não acumula tecnologia, know-how nem poder de barganha: Brasil, a 9ª potência econômica mundial, 84ª no IDH entre 193 países.
O resultado é a subserviência no mundo digital das big techs: dados processados fora, algoritmos decididos fora, lucro distribuído fora. O Brasil oferece território e energia barata; recebe produto importado caro e dependência garantida. Não é fatalidade geográfica. É uma escolha de política industrial.
Nota máxima na prova do subsolo. De “segunda época” na prova do valor agregado.
6. TERRABRAS: O Gesto de 1953, Agora com o Minério
Para quem chega agora à discussão: TERRABRAS não é uma proposta de mineradora estatal, mas de uma empresa híbrida, capital público majoritário, gestão técnica blindada dos ciclos eleitorais, parceria com universidades, capaz de fazer pelas terras raras o que a Petrobras fez pelo petróleo.
O objetivo da TERRABRAS não é apenas extrair. É dominar o refino, a metalurgia, a fabricação de ímãs permanentes e as aplicações de maior valor agregado em território nacional.
O Brasil tem o minério. Tem o precedente de 1953. Tem até o espelho vietnamita para provar que a ideia já saiu do papel. O que falta, como sempre, é decisão política de não continuarmos colonizados, reféns do complexo rodriguiano de vira-lata.
7. ENERGIA-BR: O Brasil Não É Tomada de Cozinha
Energia é matéria-prima estratégica que ainda tratamos como simples commodity.
O Brasil caminha para ser potência mundial em renováveis enquanto assiste à corrida global e desesperada por datacenters e infraestrutura de IA.
É uma oportunidade extraordinária. É um risco do mesmo tamanho.
Sem estratégia nacional, repetiremos o erro de sempre: fornecer energia limpa, barata e abundante para cadeias produtivas cujo valor fica no exterior.
ENERGIA-BR nasce dessa preocupação: um arcabouço regulatório que trata a energia limpa como ativo de soberania. Grandes consumidores (datacenters, mineração digital, treinamento de modelos de IA) devem oferecer contrapartidas à altura do recurso: emprego qualificado, transferência tecnológica, transparência e auditagem.
O Brasil não precisa vender só o kWh que, por hora, tem de sobra (espera 2030… hummm). Precisa vender desenvolvimento!
Conclusão: A Ciência Está Fazendo a Sua Parte
Desembestando na “contramão em cima da calçada“ da TERRABRAS e da ENERGIA-BR, o papo-furado recorrente: o Brasil não tem tecnologia. História de Trancoso repetida até virar verdade de Carochinha.
Pois em Lagoa Santa, o LabFabITR, primeiro laboratório-fábrica de ímãs de terras raras do Hemisfério Sul, já produz em escala experimental o que juram que não sabemos fazer.
Mais do que um laboratório isolado, o LabFabITR ele integra um esforço nacional. O INCT PATRIA (Processamento e Aplicações de Ímãs de Terras Raras para a Indústria de Alta Tecnologia), coordenado pela Escola Politécnica da USP e financiado pelo CNPq, reuniu mais de uma dezena de universidades, institutos de pesquisa e empresas (USP, IPT, CETEM, IPEN, UFSC, CERTI, CDTN, CBMM e WEG) para desenvolver a cadeia brasileira de terras raras.
Enquanto isso, na Sala da Justiça (SIC) americana, acontece a ironia das ironias: a mesma Casa Branca que pressiona o Brasil por causa do Pix enviou, em março de 2026, uma delegação para visitar justamente o LabFabITR, de olho na tecnologia que a TERRABRAS e a ENERGIA-BR propõem desenvolver e manter em solo nacional.
O desafio, portanto, não é de laboratório. É de decisão.
A ciência já respondeu que sabe. O Vietnã, que é possível. A China, que o poder mora no refino. Os Estados Unidos, que o jogo já começou. Falta só o Brasil.
E o Brasil, desta vez, tem tudo: o minério, a energia, a ciência, o espelho e sua criativa e competente academia.
Só não tem mais tempo…
A prova dos nove não espera aluno atrasado.
CONTINUA A CARAVANA DE SOBERANIA DIGITAL – PROGRAMAÇÃO JUL/AGO/SET – FASE 3:
10/jul Guaramiranga – Ce (Casa de Santos Dumont/ Museu EPCAR – Hotel Vale das Nuvens)
20/jul Gramado – RS (Congresso da Sociedade Brasileira de Computação)
27/jul Niterói – Rio (Reunião Anual da Sociedade Brasileira Progresso da Ciência)
04/ago Garibaldi/RS ( Workshop Tec Informação e Comunicação dos IFs)
10/Ago Vitória – ES (Depto Computação Instituto Federal do Espírito Santo – IFES)
11/Ago Vitória – ES (Depto Computação Universidade Federal do Espírito Santo – UFES)
Mais informações sobre a Caravana LF de Soberania Digital, acesso ao PDF de livros e artigos:
*Mauro Oliveira
Professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações. Prêmio Luiz Fernando da Sociedade Brasileira de Computação – 2023.