Com o título “As cartas que me escreveram”, eis texto de Suzete Nocrato, jornalista e mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará. “Mesmo cercada pelas facilidades da tecnologia, mantenho o gosto pela escrita à mão e defendo que o e-mail não pode, de jeito nenhum, substituir uma carta. Talvez porque os pensamentos encontrem um ritmo próprio e os sentimentos se manifestem com mais fluidez do que no teclado do computador”, expõe a articulista.
Confira:
A leitura do livro “A Correspondente”, de Virginia Evans, levou-me à adolescência e ao poder que a escrita de cartas tem de nos reconectar com pessoas que amamos e de revelar quem somos.
Na infância e adolescência, colecionei papéis de carta. Havia as floridas, as com os pássaros flutuando em suas margens, as mais simples. Todas carregadas de desejo à espera dos sentimentos.
Escrevo desde que me reconheço. Ao contrário de tantas meninas da minha geração, nunca me seduziu a ideia de manter um diário. Preferia enviar missivas para mim mesma, como uma forma de exorcizar meus medos, despejar frustrações, raiva, pequenas alegrias e perguntas sem resposta. Elas eram importantes na minha caminhada.
Quando as férias escolares terminavam e voltávamos à realidade dos estudos e desafios, eu e minhas primas trocávamos confidências, na vontade de prolongarmos os dias em Saboeiro. Era o jeito que encontrávamos de prolongar a presença umas das outras.
Durante alguns anos, sustentamos essa ponte de papel. Com o tempo, a abandonamos, sem, no entanto, perder o vínculo entre nós.
Mesmo cercada pelas facilidades da tecnologia, mantenho o gosto pela escrita à mão e defendo que o e-mail não pode, de jeito nenhum, substituir uma carta. Talvez porque os pensamentos encontrem um ritmo próprio e os sentimentos se manifestem com mais fluidez do que no teclado do computador.
Enquanto penso nisso, renasce a esperança de reencontrar o antigo ritual de escolher um papel, datar a página, dobrar cuidadosamente cada folha, selar um envelope.
Quem sabe ainda haja tempo de recuperar esse gesto, antes que ele se torne apenas lembrança de um mundo em que as pessoas também sabiam esperar e os correios ainda não haviam desaparecido.
*Suzete Nocrato
Jornalista e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará.