“Jogo das Mãos” – Por Totonho Laprovítera

Totonho Laprovíítera: o contador de hstórias. Foto: Portal IN

Com o título “Jogo das Mãos”, eis mais um texto de Totonho Laprovítera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

Confira:

Na praia, uma menina passava horas se distraindo sozinha à beira da enseada do Mucuripe. Catava pedrinhas miúdas, arredondadas pela água, e se entretinha com uma brincadeira aprendida com as mulheres mais velhas da aldeia.

Com uma das mãos, lançava as pedras para o alto e tentava apará-las antes da queda. Com a outra, fazia uma coivara, passando-as entre o polegar e o indicador. O movimento parecia simples, mas exigia atenção, ritmo e paciência. Quando acertava, sorria satisfeita. Quando errava, apenas recomeçava, pois já entendia que certas coisas não se resolvem com raiva.

Os pescadores diziam que ela brincava como quem conversava com o vento maral. O que ninguém sabia era que aquele jogo guardava um ensinamento muito antigo, escondido havia gerações entre as brincadeiras das crianças.

As pedras eram as almas.

Quando subiam, levavam consigo o impulso da vida: desejos, medos, coragem, memória e sonho. Quando desciam, precisavam ser aparadas pela inteireza das mãos, porque nenhum espírito atravessa sozinho os caminhos desconhecidos do mundo.

Os antigos acreditavam que existe, acima do céu e além do mar, um lugar onde se encontram os encantados de todas as tribos. Para chegar até lá, cada alma precisava aprender o andamento certo da existência: subir sem orgulho, descer sem medo e aceitar as mãos que ajudam na passagem.

Por isso, quando uma pedra escapava pelos dedos da indiazinha, a brincadeira não acabava. Era preciso repetir. Não como castigo, mas como continuação.

Os mais velhos diziam que há quem atravesse a vida inteira sem perceber o desenho escondido nos próprios gestos. Outros descobrem cedo que o mundo fala baixinho e prefere ensinar pelas pequenas imagens: uma jangada no horizonte, um pássaro solitário, uma pedra lançada ao ar.

Talvez por isso aquela indiazinha nunca tenha abandonado o jogo. Já desconfiava, ainda pequena, de que brincar também podia ser um jeito de aprender sobre aquilo que ninguém consegue explicar direito.

Depois das pedrinhas, chamava as amigas para brincar de lagarta pintada. Todas com as mãos espalmadas, iam beliscando umas às outras até chegarem ao fim da cantiga, quando puxavam as próprias orelhas entre risos e reclamações fingidas, espalhando pela praia uma alegria cheia de infância e maresia.

*Totonho Laprovítera

Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

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