“O que se ganha quando se perde?” – Por Mirelle Costa

A pergunta parece contraditória. Desde pequenos somos ensinados a celebrar vitórias, medalhas, primeiros lugares. Talvez por isso, nessa semana tenha sido tão difícil consolar as lágrimas das crianças que assistiram a derrota do Brasil na Copa do Mundo. Aprendemos que ganhar é chegar na frente, é ser aceito, reconhecido, diferenciado, é pertencer a um seleto grupo, mas a vida, assim como o futebol, insiste em nos mostrar que existem derrotas que engrandecem e vitórias que deixam um vazio enorme.

É possível ganhar perdendo? É possível perder ganhando?

A Copa tem nos mostrado isso.

Cabo Verde perdeu dentro de campo, mas saiu gigante. Não carregou uma taça na mala, mas levou pra casa algo que pesa mais do que qualquer troféu: orgulho e sentimento de pertença. Seus jogadores foram recebidos como heróis porque entregaram aquilo que um povo espera de quem veste suas cores: coragem, vontade e verdade.

O Paraguai também deixou sua marca, assim como o México e o Egito. Outras seleções consideradas pequenas, como Curaçau, mostraram ao mundo que grandeza não está apenas no ranking, na tradição ou nas estrelas bordadas na camisa, mas na capacidade de lutar até quando todos dizem que você tem poucas chances.

O que está acontecendo com o Brasil?

O brasileiro ainda está inconformado? Talvez. O sentimento de frustração parece ser mais difícil de lidar do que a tristeza. O nosso incômodo não parece ser apenas pela derrota para a Noruega. O brasileiro conhece bem o fracasso (diariamente, inclusive).

Porém, existe uma diferença enorme entre perder depois de entregar tudo e perder deixando a sensação de que faltou alguma (ou muita) coisa.

O torcedor perdoa o erro, a bola na trave e até o adversário melhor. O que ele não perdoa é não reconhecer em campo aquilo que ele próprio faz todos os dias: lutar.

Talvez porque o futebol sempre tenha sido um espelho do brasileiro, algo que um técnico italiano não consegue entender. Somos um povo que acorda cedo, pega ônibus cheio, improvisa, enfrenta dificuldade e segue acreditando. Não somos apaixonados por vitórias. Somos apaixonados por histórias de superação.

Por que um país pequeno pode voltar para casa eliminado e encontrar festa? Porque seu povo viu ali um pedaço de si. Viu esforço. Viu entrega. Viu alguém dizendo: “não conseguimos, mas tentamos até o fim”.

No fundo, ninguém perde quando entrega tudo.

Perder também ensina, revela. Perder mostra quem continua de pé, mesmo quando o resultado não vem.

A grande pergunta depois dessa derrota talvez não seja “por que perdemos?”, mas sim:

O que deixamos em campo antes de terminar a partida?

Algumas derrotas entram para a história, enquanto outras vitórias quase ninguém lembra.

É tempo de reconciliar tudo o estamos perdendo (essa é a sexta vez, não é mesmo?) com aquilo que já alcançamos.

Onde nasce água, agora também brotam histórias

Neste domingo, o Parque das Iguanas ganha mais um motivo para reunir a comunidade: será inaugurada a Gelateca do Movimento Literário BoraLer+, uma iniciativa que transforma antigas geladeiras em pequenos pontos de encontro entre pessoas e livros.

O projeto, que incentiva a leitura para todas as idades, chega a um lugar que também tem sua própria história de transformação. O Parque das Iguanas, antes um terreno baldio, foi recuperado pelas mãos dos moradores. Onde havia abandono, hoje existem mais de 80 árvores plantadas, convivência, cuidado coletivo e até uma descoberta especial: durante a revitalização, surgiu um olho d’água que estava escondido pela falta de preservação.

Agora, nesse espaço onde a natureza voltou a respirar, a literatura também cria raízes. A Gelateca chega com a proposta de aproximar leitores, incentivar trocas e lembrar que os livros também podem ocupar praças, parques e todos os lugares onde existem pessoas dispostas a imaginar.

A inauguração acontece neste domingo, no Parque das Iguanas, com contação de histórias, encontros, conversas e muito aconchego.

É só chegar, escolher uma sombra, abrir um livro e deixar a história acontecer.

SERVIÇO

Parque das Iguanas: Rua Walter de Castro s/n (esquina com avenida José Leon), Cidade dos Funcionários

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