“O projeto ‘Ponto.Poesia’ é uma zine pela democracia, com poemas que escrevemos especialmente para este delicado momento político que o país atravessa”, aponta a jornalista e escritora Ana Márcia Diógenes
Confira:
Cinco poetas, os pontos de ônibus de Fortaleza e a indestrutível vontade de encantar a sensibilidade dos desconhecidos, pelas palavras, pelas sensações. Foi com esta missão de alcançar o outro que Alyne Freitas, Aline Matias, Cris Rosa, Beatriz Caldas e eu saímos às ruas de Fortaleza algumas vezes nos últimos dias. E vamos sair mais.
Criamos juntas o projeto “Ponto.Poesia” e uma zine pela democracia (editada pela Beatriz), com poemas que escrevemos especialmente para este delicado momento político que o país atravessa. Escolhemos ir até aos anônimos trabalhadores que transitam nos pontos de ônibus de Fortaleza.
Na abordagem a cada um deles, e delas, perguntamos se gostavam de poesia, avisamos que a zine era gratuita, falamos dos grupos de WhatsApp que dividiam famílias, ambientes de trabalho e amizades, informamos que tínhamos nossa escolha política, mas o que queríamos era levar poesia para aliviar as tensões do cotidiano e ajudar a refletir sobre democracia.
As reações foram as mais diversas. A maioria disse gostar de poesia, agradeceu a zine, e começou a ler mesmo antes de entrar no ônibus. Só uma mulher devolveu ao ver o número 13 do candidato da nossa escolha. Repetiu uma série de frases decoradas. Repassamos a zine que seria dela para outra pessoa.
Uma reação interessante foi a de uma moça que disse nem gostar de poesia e nem conhecer ninguém que gostasse. Mas, quando não me deixei abater e mostrei uma poesia, ela brilhou os olhos, pediu para ficar com a zine e começou a ler com os olhos ainda cansados do trabalho.
Este retorno, instintivo, natural, nos deu mais forças para seguir no nosso manifesto em defesa da cultura, arte, educação, liberdade, democracia e soberania do nosso país.
O que começou como uma ideia de apoio à cultura e à literatura em tempos de disputa eleitoral – e de contribuir para que quem votou nulo ou se absteve exerça sua cidadania e vote – promete se repetir em outros momentos. Afinal, a poesia, por si só, é um movimento de expandir a si, ao outro, à vida. Precisamos, como nunca, desse palavrear com o sensível.
Ana Márcia Diógenes é jornalista e escritora