“Não entendo por que esperar o primeiro de janeiro para iniciar algo. Como se o 31 de dezembro fosse o dia oficial para fechar ciclos e o 1° de janeiro o de abrir”, aponta o jornalista Paulo Rogério
Confira:
Tem um lajedo na estrada entre Aracati e Itaiçaba de mais ou menos uns 15 a 20 metros de altura. Lá em cima há uma casa antiga de paredes brancas e janelas verdes. Ao lado, entre as pedras, duas antenas que devem ser de alguma operadora de celular , imagino eu. O acesso para a casa se dá por um caminho estreito pela lateral, tão cheio de pedras quanto o restante da paisagem.
Fiquei imaginando como deve ser complicado para quem vive lá fazer coisas que são simples para a maioria de nós: comprar um pão na padaria, ou o remédio na farmácia , um pacote de café. A própria construção da casa, por exemplo, deve ter sido bem complicada, com o sobe e desce de algum sujeito corajoso levando cada tijolinho. São fatos que nem nos damos conta quando vemos moradias assim, longe da tudo, escondidinhas entre uma montanha qualquer.
E achar alguém que leve uma pizza naquela casinha do lajedo? Ora, se nem nos apartamentos das cidade grandes os entregadores sobem, avalie naquele pequeno monte. E provável que, dificuldades como essa, justifiquem a grande quantidade de casas abandonadas que a gente encontra pela estrada. E fácil ver pelo caminho construções sem telhado, portas e janelas. Comunidades inteiras completamente desertas. Como é triste ver uma residência onde a entrada é fechada por uma parede de tijolos. É como se a história da família que ali se formou, criou os filhos, teve sonhos e teve que ir embora fosse enterrada para sempre.
Apesar das dificuldades diárias, às vezes tenho vontade de ir morar em um local assim. Longe de todos, da confusão, do trânsito louco, do vizinho chato. Acredito que todos já pensaram isso em um momento da vida. Eu mesmo cheguei a procurar recentemente, uma nova moradia. Não um lugar assim, tão radical, como o lajedo da estrada, mas para uma cidade pequena, de preferência perto da praia, e com poucos habitantes. Um daqueles locais que você sai na rua cumprimentando cada um pelo nome.
Uma cidade onde você sabe quem é quem e os outros sabem que você não é apenas um número. Como hoje onde sou o ilustre morador do apartamento 1001 do bloco B do prédio 365.
Nestes dias de ano novo, planejar mudanças e a regra geral. Parece que vivemos construindo marcos. Sinceramente não entendo por que esperar o primeiro de janeiro para iniciar algo. Como se o 31 de dezembro fosse o dia oficial para fechar ciclos e o 1° de janeiro o de abrir. Ora, se quer mudar, mude logo. Para que esperar uma data específica?
Sei que mudar não é fácil. E não falo só de moradia. Me refiro, principalmente, a padrões de comportamento. Se adaptar a novos costumes, a rotinas diferentes, atitudes inovadoras, enfim. Uma revolução interna muitas vezes necessária para seguir adiante. Basta ter ousadia de dar o primeiro passo.
Paulo Rogério (paulorogerio42@gmail.com) é jornalista