Com o título “A casa que nunca deixou de produzir”, eis texto de Suzete Nocrato, jornalista e mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará. “
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Percorri o Maciço de Baturité em busca de personagens para um livro. Em Aracoiaba, encontrei um homem que seria impossível esquecer. Francisco Soares da Silva, o Chico Soares, foi vaqueiro, contador de causos, profeta da chuva. Mal sabia ler, mas entendia os sinais do céu, do vento e da terra como poucos.
Depois de décadas trabalhando para outros, entre sacrifícios e renúncias, conseguiu, já sexagenário, comprar quatro hectares na Lagoa de São João, em Aracoiaba. Para muita gente, era pouca terra. Para ele, era um mundo inteiro. Ali ergueu uma casa de farinha.
O resto da história viria depois.
Durante muitos anos, aquele galpão organizou a rotina da família. Antes mesmo do sol nascer, o trabalho já começava. O cheiro da mandioca, o calor do forno, as conversas pelo terreiro e o entra e sai de vizinhos faziam daquele espaço um ambiente onde a vida acontecia.
O tempo passou, os filhos cresceram e a antiga construção silenciou. Parecia o fim de uma história. Quando tudo indicava que aquele lugar havia cumprido sua missão, ganhou um novo destino.
Em 2018, a família reuniu parentes e amigos para celebrar o centenário de seu Chico Soares. Como nas grandes festas do interior, ofereceu muita comida e quatrocentos litros de cajuína. A bebida artesanal fez tanto sucesso que os convidados quiseram levar algumas garrafas para casa.
Foi então que o velho amansador de bois, acostumado a ler a natureza, percebeu uma oportunidade. O filho Silvanar hesitou. Produzir cajuína para vender exigia coragem, investimento e ousadia. O pai respondeu do jeito dele:
— Meta as caras, seu besta, que eu lhe ajudo.
Foi assim que o local, onde antes se produzia beiju, passou a transformar o caju em cajuína. O trabalho, porém, permaneceu o mesmo.
A pandemia da Covid-19 tentou interromper esse caminho. Vieram as perdas, as incertezas. Contudo, já não havia como voltar atrás.
Mesmo doente, o patriarca ainda encontrou forças para incentivar a família a seguir em frente. Morreu em 2020, aos 102 anos, sem ver a pequena produção alcançar outras regiões e chegar à capital.
Hoje, quem visita a sede da Cajuína São João se depara com três tempos convivendo no mesmo espaço. Continua sendo Casa de Farinha, porque ninguém apaga as origens. É Casa de Cajuína, porque a tradição encontrou outra forma de seguir. Tornou-se também Casa de Cultura Seu Chico Soares e Dona Luzia, onde encontros, celebrações e atividades mantêm viva a memória da comunidade.
*Suzete Nocrato
Jornalista e mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará.
suzete.nocrato@gmail.com