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“A Copa, as Bets e a Indústria de Manipulação Comportamental” – Por Alex Araújo

Alex Araújo é economista.

Com o título “A Copa, as Bets e a Indústria de Manipulação Comportamental”, eis artigo de Alex Araújo, economista e ex-secretário do Desenvolvimento Local do Ceará. “A pergunta que ninguém quer fazer em voz alta é simples: se uma plataforma sabe, com precisão estatística, o momento exato em que você é mais vulnerável a uma aposta — e usa esse conhecimento para te enviar uma oferta personalizada —, em que sentido essa ainda é uma escolha sua?”, expõe o articulista.

Confira:

A Copa do Mundo de 2026 será lembrada por vários motivos: o primeiro mundial em três países, um número recorde de seleções, um contexto geopolítico incomum. No Brasil, porém, existe uma razão adicional para sua singularidade — será a primeira Copa realizada sob um mercado plenamente regulamentado de apostas esportivas, com projeções de R$ 31 bilhões movimentados apenas durante o torneio.

À primeira vista, parece a consolidação natural de uma nova indústria de entretenimento. Mas essa leitura é insuficiente. O fenômeno das bets representa algo de outra ordem: a transformação da economia contemporânea em uma disputa sistemática pela atenção, pelas emoções e pelo comportamento humano.

A discussão pública costuma girar em torno de tributação, lavagem de dinheiro e dependência em jogos. Todos esses temas são relevantes, mas nenhum deles captura a questão central. O problema não é quanto dinheiro as bets movimentam. O problema é como elas o capturam.

A questão não é o volume das apostas, mas a arquitetura que as sustenta. Antes de competir por dinheiro, as bets competem por algo anterior: a atenção.

Durante a maior parte da história econômica, empresas competiam por renda — disputavam a preferência do consumidor com base em preço, qualidade ou conveniência. A economia digital reconfigurou esse arranjo. Antes de vender qualquer
coisa, é preciso capturar o tempo, o foco e o engajamento do indivíduo. Quem controla a atenção passa a influenciar decisões de consumo, escolhas financeiras e comportamentos sociais.

As apostas esportivas representam a forma mais sofisticada dessa lógica. Ao contrário de um produto convencional, uma aposta não oferece apenas um resultado econômico potencial — oferece expectativa, emoção, suspense e recompensa variável. Esses estímulos ativam mecanismos psicológicos enraizados na biologia humana: pesquisas em neurociência demonstram que recompensas imprevisíveis geram níveis de engajamento superiores às previsíveis, exatamente o princípio que sustenta cassinos e máquinas caça-níqueis. O usuário não retorna apenas pelo dinheiro. Ele retorna pela expectativa do dinheiro, e essa distinção é fundamental para entender o modelo.

As plataformas modernas de bets não são empresas de jogos no sentido tradicional. São organizações especializadas em ciência comportamental, análise de dados e personalização algorítmica. Cada clique, cada aposta e cada padrão de navegação geram informações que tornam a experiência progressivamente mais difícil de abandonar. Nesse sentido, as bets são apenas a face mais visível de uma transformação muito mais ampla: plataformas de comércio eletrônico incorporam mecânicas de gamificação, redes sociais utilizam reforço intermitente, e empresas como Shopee e Temu integraram elementos lúdicos ao próprio processo de compra. O objetivo é sempre o mesmo — maximizar engajamento. A diferença é que as bets operam na fronteira mais avançada dessa lógica, onde o risco financeiro pessoal está
diretamente embutido na experiência.

Não se trata de concorrência entre empresas pelo bolso do consumidor. Trata-se de uma disputa pelo controle das decisões antes mesmo que sejam tomadas.

O risco, portanto, não é apenas econômico — é social. Pesquisadores ligados ao Hospital das Clínicas da USP documentam crescimento acelerado de transtornos relacionados ao jogo, com custos que se manifestam em endividamento, conflitos familiares e erosão da saúde mental. Os benefícios da atividade aparecem nas estatísticas. Os custos são mais difusos: surgem na forma de inadimplência, ansiedade e superendividamento silencioso. Estudos recentes indicam que entre R$ 40 bilhões e R$ 50 bilhões anuais deixaram de ser direcionados ao consumo tradicional em razão das apostas online — sinal de que o fenômeno já reorganiza a economia real.

Por isso, o debate regulatório precisa evoluir. A pergunta predominante tem sido “como regular as apostas”, mas essa formulação é estreita demais. A pergunta mais precisa é outra: quais mecanismos de influência comportamental uma sociedade considera legítimos? Essa questão vai muito além das bets — alcança redes sociais, algoritmos de recomendação e sistemas de inteligência artificial que, cada vez mais, conseguem adaptar estímulos a indivíduos específicos em tempo real. O resultado é uma economia capaz de competir não apenas pelo dinheiro das pessoas, mas pela própria arquitetura de suas decisões.

Liberdade econômica pressupõe escolhas livres. E escolhas livres exigem que os mecanismos usados para influenciá-las sejam transparentes.

A Copa de 2026 oferece um laboratório inédito para observar essa transformação: nunca houve tanta capacidade tecnológica para influenciar comportamentos em tempo real, com tantas plataformas operando simultaneamente. Milhões de brasileiros receberão notificações, bônus e apostas ao vivo vinculadas a cada lance relevante. A competição deixará de ocorrer apenas dentro de campo. A pergunta que ninguém quer fazer em voz alta é simples: se uma plataforma sabe, com precisão estatística, o momento exato em que você é mais vulnerável a uma aposta — e usa esse conhecimento para te enviar uma oferta personalizada —, em que sentido essa ainda é uma escolha sua? A Copa de 2026 vai responder a muitas perguntas sobre futebol. A pergunta sobre autonomia, essa, continuará sem resposta.

*Alex Araújo

Economista e ex-secretário do Desenvolvimento Local do Ceará.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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