“A Década do Medo: Quando o medo passou a governar o mundo” – Por Cândido Henrique

Cândido Henrique, geógrafo e ex-superintendente do Iphan do Ceará. Foto: Arquivo Pessoal

Com o título “A Década do Medo: Quando o medo passou a governar o mundo”, eis artigo de Cândido Henrique, geógrafo e ex-superintendente do Iphan do Ceará. “A história poderá registrar esta como a década do medo não apenas pelos acontecimentos trágicos que a marcaram, mas principalmente pela maneira como o medo passou a influenciar nossas decisões, nossas relações e nossa percepção do futuro”, expõe o articulista.

Confira:

Pandemia, guerras, tensões geopolíticas, intolerância e extremismos transformaram os anos 2020 em um período marcado pela insegurança
coletiva, pela radicalização das relações humanas e pelo enfraquecimento dos valores civilizatórios.

A história costuma atribuir nomes às suas grandes épocas. Algumas décadas ficam conhecidas pelas revoluções tecnológicas, outras pelas transformações econômicas, pelos movimentos culturais ou pelas grandes conquistas da humanidade. Entretanto, quando olharmos retrospectivamente para o século XXI, é possível que a década de 2020 venha a ser lembrada por uma característica muito mais inquietante: a década do medo.

Tudo começou com uma pandemia. O surgimento da Covid-19, em 2020, mergulhou praticamente toda a população mundial em uma experiência coletiva de insegurança sem precedentes para as gerações contemporâneas. O medo da doença, da morte, do isolamento, da perda de familiares, do desemprego e do colapso econômico passou a fazer parte do cotidiano de bilhões de pessoas.

A pandemia não provocou apenas uma crise sanitária. Ela alterou comportamentos, relações sociais, hábitos de consumo, estruturas econômicas e até a maneira como as pessoas passaram a interpretar o mundo. O medo tornou-se um elemento permanente na tomada de decisões individuais e coletivas.

A partir daquele momento, parece ter se estabelecido uma perigosa espiral: o medo alimentando a insegurança, a insegurança estimulando a desconfiança e a desconfiança aprofundando divisões sociais e políticas.

O medo ultrapassou as fronteiras da saúde pública e passou a ocupar o espaço da política, da diplomacia e das relações internacionais.

Um mundo cada vez mais inseguro

Enquanto a humanidade ainda tentava superar os efeitos sociais e econômicos da pandemia, o cenário internacional passou a registrar uma sucessão de acontecimentos que ampliaram a percepção de instabilidade global.

A invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, recolocou a guerra de grandes proporções no centro das preocupações europeias. Posteriormente, a escalada dos conflitos no Oriente Médio, especialmente a partir de outubro de 2023, aprofundou as tensões regionais e internacionais, ampliando o sofrimento das populações civis e as incertezas sobre a segurança mundial.

Na Ásia, as disputas estratégicas envolvendo China, Taiwan, Estados Unidos e países vizinhos passaram a representar mais um importante foco de preocupação geopolítica. Ao mesmo tempo, tensões na Península Coreana, disputas territoriais e rivalidades econômicas e militares demonstram que a estabilidade internacional continua submetida a grandes desafios.

A corrida armamentista, o fortalecimento de alianças militares, o crescimento dos investimentos em defesa e a deterioração de determinados canais diplomáticos revelam um ambiente internacional no qual a desconfiança parece ganhar cada vez mais espaço.

O medo de perder influência, território, soberania, mercados ou poder estratégico frequentemente aparece como justificativa para decisões que podem ampliar ainda mais os riscos de conflitos.

É como se parte do mundo estivesse aprisionada em uma lógica de antecipação de ameaças: cada país procura proteger-se das possíveis ações de seus adversários, mas, nesse processo, acaba contribuindo para aumentar a insegurança dos demais.

A intolerância como expressão do medo social

Entretanto, talvez uma das manifestações mais preocupantes dessa década não esteja apenas nos campos de batalha, mas no cotidiano das sociedades.

O avanço da intolerância, da polarização política, da xenofobia, do racismo, do antissemitismo, da islamofobia e de outras formas de discriminação revela uma dificuldade crescente de convivência com as diferenças.

Em diferentes partes do mundo, manifestações sociais legítimas convivem com episódios de violência, radicalização e confrontos. A divergência de ideias, que deveria constituir um dos fundamentos das sociedades democráticas, muitas vezes passa a ser interpretada como ameaça ou inimigo a ser combatido.

As redes sociais, por sua vez, potencializam esse ambiente. A velocidade de circulação de informações, a desinformação, os discursos de ódio e os mecanismos de amplificação de conteúdos extremistas podem transformar receios individuais em pânicos coletivos e divergências em antagonismos aparentemente irreconciliáveis.

O outro deixa de ser alguém com quem se pode dialogar e passa a ser visto como alguém de quem se deve desconfiar, afastar ou combater.

A Europa, historicamente associada à construção de instituições democráticas e de mecanismos de integração entre povos, também enfrenta manifestações de extremismo, violência política, intolerância religiosa e conflitos relacionados à imigração e à identidade cultural. Na Ásia, diferentes sociedades convivem com tensões étnicas, religiosas, políticas e territoriais que, em determinados contextos, assumem proporções dramáticas.

São manifestações distintas, com causas históricas próprias, mas que compartilham um elemento preocupante: a dificuldade de construir soluções baseadas no diálogo, no respeito às diferenças e na convivência pacífica.

O medo como instrumento de poder

Uma questão merece especial atenção: o medo não é apenas uma reação humana diante de situações de perigo. Ele também pode ser utilizado como instrumento de mobilização, controle e exercício do poder.

Governos, movimentos políticos, organizações extremistas e diferentes atores sociais podem explorar a insegurança coletiva para justificar medidas excepcionais, estimular antagonismos, construir inimigos e conquistar apoio para determinadas agendas.

Quando o medo passa a orientar sistematicamente as decisões, a racionalidade tende a perder espaço. A prudência pode transformar-se em paralisia, a proteção em isolamento, a segurança em intolerância e o patriotismo em hostilidade ao estrangeiro.

Nas relações internacionais, essa lógica pode alimentar ciclos de retaliação e escalada militar. Na política doméstica, pode enfraquecer o debate democrático. Nas relações sociais, pode destruir pontes de convivência e aprofundar preconceitos.

O problema não está em reconhecer ameaças reais ou adotar medidas de proteção. O problema começa quando o medo deixa de ser um alerta circunstancial e passa a constituir o principal fundamento das escolhas humanas.

Uma crise de valores civilizatórios?

Talvez o aspecto mais inquietante dos anos 2020 seja a contradição entre o extraordinário desenvolvimento científico e tecnológico alcançado pela humanidade e a persistência de comportamentos que remetem a períodos históricos marcados pela barbárie, pela intolerância e pela desumanização.

Nunca tivemos tanta capacidade de comunicação, produção de conhecimento, desenvolvimento científico e cooperação internacional. Entretanto, continuamos assistindo a guerras, perseguições, deslocamentos forçados, violência contra populações civis e manifestações de ódio que colocam em questão princípios fundamentais da civilização contemporânea.

O avanço tecnológico não significa necessariamente avanço moral. Uma sociedade pode desenvolver inteligência artificial, explorar o espaço, produzir medicamentos revolucionários e, simultaneamente, demonstrar enorme dificuldade para respeitar a dignidade humana.

A barbárie não desaparece com o progresso. Ela pode simplesmente assumir novas formas, utilizar novas tecnologias e encontrar novas justificativas.

A necessidade de romper a espiral do medo

Ainda estamos atravessando a década de 2020. Portanto, seria prematuro estabelecer um julgamento histórico definitivo sobre esse período. Entretanto, os acontecimentos acumulados desde 2020 oferecem elementos suficientes para uma reflexão sobre os rumos da humanidade.

Precisamos compreender que segurança não se constrói exclusivamente com armamentos, muros, sanções, vigilância ou mecanismos de controle. A segurança também depende de confiança institucional, cooperação internacional, justiça social, educação, respeito às diferenças e fortalecimento das instituições democráticas.

O medo pode ser necessário para reconhecer perigos, mas não deveria ser o princípio orientador da vida em sociedade.

Uma humanidade permanentemente amedrontada torna-se mais vulnerável à manipulação, mais suscetível à intolerância e menos disposta a construir consensos.

O desafio desta década talvez seja justamente recuperar a capacidade de distinguir ameaças reais de temores fabricados, divergências legítimas de antagonismos artificiais e medidas de proteção de instrumentos de opressão.

Se não conseguirmos interromper essa espiral, corremos o risco de chegar ao final dos anos 2020 com sociedades mais desconfiadas, nações mais hostis e instituições mais fragilizadas.

A história poderá registrar esta como a década do medo não apenas pelos acontecimentos trágicos que a marcaram, mas principalmente pela maneira como o medo passou a influenciar nossas decisões, nossas relações e nossa percepção do futuro.

Afinal, o maior perigo para a humanidade talvez não seja apenas viver em um mundo cercado de ameaças, mas permitir que o medo se transforme na principal força a determinar o que somos, como pensamos e como escolhemos viver.

Porque uma civilização que perde a capacidade de dialogar, compreender e conviver com as diferenças começa, pouco a pouco, a perder também aquilo que a torna verdadeiramente civilizada.

*Cândido Henrique de Aguiar Bezerra

Geógrafo e ex-superintendente estadsual do Iphan.

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