Com o título “A decadência do mimado Ney”, eis a coluna “Fora das4Linhas”, desta quinta-feira, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “Aos 39 anos, Neymar já não enfrenta apenas a inevitável curva descendente da carreira. Enfrenta, sobretudo, a dificuldade de conviver com ela. E essa talvez seja a mais dura das derrotas para qualquer esportista”, expõe o colunista.
Confira:
Há muito tempo Neymar deixou de ser notícia apenas pelo futebol. Infelizmente, seus gestos, reações e destemperos passaram a ocupar mais espaço do que seus dribles e gols. Os episódios recentes apenas reforçam essa percepção. Da tentativa de constranger o goleiro da Noruega durante a Copa do Mundo ao mais novo desentendimento contra o Remo, do Pará, desenha-se um roteiro repetitivo e preocupante.
Quando um atleta transforma o adversário em alvo de menosprezo, quase sempre a disputa deixa de ser esportiva para revelar conflito muito mais profundo. Não cabe diagnosticar alguém à distância, mas a Psicologia há muito descreve mecanismos de defesa em que a dificuldade de aceitar a nova realidade leva à necessidade permanente de reafirmação. Em outras palavras, quando o brilho diminui, cresce a tentativa de compensá-lo pelo comportamento.
Talvez esse seja o maior drama de Neymar. O jogador que encantou o mundo parece não aceitar que o tempo é implacável com qualquer atleta. O físico muda, a velocidade diminui, os adversários evoluem e o protagonismo precisa ser reconstruído de outras formas. Grandes campeões compreenderam isso. Outros passaram a lutar não contra os rivais, mas contra o espelho.
O problema é que, em vez de ajudá-lo a enxergar essa realidade, muita gente prefere aplaudir qualquer reação impulsiva. Amigos, assessores e admiradores confundem lealdade com conivência. Validam atitudes que deveriam ser motivo de reflexão. Fecham os olhos para sinais evidentes de que algo não vai bem.
Essa permissividade, aliás, acompanha Neymar desde o início da carreira. Durante anos, seus excessos foram tratados como travessuras de garoto genial, alguém cuja personalidade deveria ser tolerada porque o talento compensava tudo. Os alertas vieram inúmeras vezes, mas quase sempre foram abafados pelo marketing, pelos contratos milionários e pela idolatria.
O resultado aparece agora de forma cada vez mais frequente. Aos 39 anos, Neymar já não enfrenta apenas a inevitável curva descendente da carreira. Enfrenta, sobretudo, a dificuldade de conviver com ela. E essa talvez seja a mais dura das derrotas para qualquer esportista.
A decadência de um ídolo nunca começa quando desaparecem os gols. Ela começa quando desaparece a capacidade de reconhecer os próprios limites. Enquanto essa consciência não chega, multiplicam-se os episódios constrangedores que já não prejudicam apenas sua imagem, mas também os companheiros de equipe, os clubes que representa e o ambiente ao seu redor.
Todo grande atleta precisa, em algum momento, pedir ajuda para atravessar a transição entre o auge e o fim da carreira. O verdadeiro gesto de coragem não é humilhar adversários para provar grandeza perdida. É aceitar que o tempo mudou e encontrar dignidade para escrever os últimos capítulos da própria história.
*Luiz Henrique Campos
Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.