“Quando o discurso substitui a solução em segurança pública” – Por Luiz Henrique Campos

Batalhão Raio, Polícia do Ceará. Foto: Divulgação

Com o título “Quando o discurso substitui a solução em segurança pública”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, desta quinta-feira, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “O eleitor precisa estar atento. Em tempos de campanhas cada vez mais orientadas pelas redes sociais, é fundamental distinguir quem apresenta propostas viáveis de quem apenas transforma o medo coletivo em ferramenta eleitoral. Afinal, segurança pública é assunto sério demais para caber em vídeos de poucos segundos ou em encenações cuidadosamente produzidas para render curtidas e votos”, expõe o colunista.

Confira:

A segurança pública promete ocupar, mais uma vez, o centro do debate nas próximas eleições. Trata-se de tema que desperta medo, indignação e o legítimo desejo de mudança por parte da população. Justamente por isso, torna-se terreno fértil para discursos fáceis, slogans de efeito e promessas que, embora sedutoras, pouco dialogam com a complexidade do problema.

Não são poucos os candidatos que transformam desafio estrutural em espetáculo eleitoral. Apresentam soluções instantâneas para fenômeno alimentado por décadas de desigualdade, fragilidade institucional, crime organizado e deficiência das políticas públicas. Em vez de discutir inteligência policial, integração entre os entes federativos, prevenção e fortalecimento das instituições, preferem vender a imagem do “resolvedor de problemas”, aquele que, sozinho, faria o que ninguém fez.

O resultado dessa retórica está diante de nossos olhos. As casas legislativas passaram a abrigar número cada vez maior de parlamentares eleitos sob o discurso do enfrentamento implacável ao crime. Entretanto, os índices de violência continuam a desafiar o poder público, demonstrando que bravatas jamais substituíram políticas consistentes. Mais preocupante, porém, é quando o discurso ultrapassa os limites da retórica e se transforma em encenação. O Ceará já assistiu a episódios que beiram o surreal.

Há poucas semanas, um então pré-candidato chegou a anunciar voz de prisão contra apoiador seu durante ato político, em demonstração performática de autoridade. Nesta semana, parlamentar conhecido por bravatas rotineiras, usando todo aparato de mídia, protagonizou ação nas dependências da Ceasa, em Maracanaú, acusando e prendendo sem provas, publicamente, um comerciante por suposto envolvimento com tráfico de drogas, episódio que gerou grande repercussão e controvérsia.

Esses acontecimentos suscitam reflexão importante. O rigor performático costuma encontrar terreno fértil justamente diante de cidadãos comuns, trabalhadores e pessoas com reduzida capacidade de reação política ou jurídica. Raramente se observa o mesmo ímpeto quando os personagens envolvidos pertencem aos círculos de maior poder econômico ou político.

Também chama atenção a seletividade de determinados discursos. Em outras partes do país, não foram poucas as ocasiões em que defensores da retórica do combate ostensivo ao crime apareceram, sem o mesmo constrangimento, ao lado de pessoas posteriormente investigadas ou acusadas de manter vínculos com organizações criminosas. Basta ver o caso do Rio de Janeiro, onde não faltam fotos desses políticos, lépidos e fagueiros, ao lado de acusados de envolvimento com o crime organizado.

A firmeza exibida diante das câmeras, portanto, se vê, que nem sempre se repete quando os holofotes iluminam ambientes politicamente mais sensíveis, chegando até a inverter a lógica de tratamento, do criminoso para o mito.

O enfrentamento da violência exige coragem, mas também responsabilidade. Segurança pública não se constrói com performances, transmissões ao vivo ou prisões anunciadas antes da apuração dos fatos. Constrói-se com inteligência, planejamento, investimentos, investigação qualificada e absoluto respeito ao Estado de Direito.

O eleitor precisa estar atento. Em tempos de campanhas cada vez mais orientadas pelas redes sociais, é fundamental distinguir quem apresenta propostas viáveis de quem apenas transforma o medo coletivo em ferramenta eleitoral. Afinal, segurança pública é assunto sério demais para caber em vídeos de poucos segundos ou em encenações cuidadosamente produzidas para render curtidas e votos.

*Luiz Henrique Campos

Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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