“A aura do terrivelmente evangélico” – Por Luiz Henrique Campos

André Mendonça X Alexandre de Moraes. Foto: Montagem

Com o título “A aura do terrivelmente evangélico”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, desta quinta-feira, assinada pelo jornalista e psicólogo Luiz Henrique Campos. “O Supremo não pode se tornar palco de briga de versões na qual cada lado utiliza a máquina institucional para atingir o outro. Porque, no fim, a verdadeira face de quem se apresenta como guardião da moralidade não está nas palavras que pronuncia, nem na fé que professa. Está na maneira como reage quando a investigação chega à sua porta”, expõe o colunista.

Confira:

Há momentos em que a política brasileira parece fazer questão de confirmar que, em Brasília, nada é exatamente o que parece. A crise que se instalou no Supremo Tribunal Federal (STF), envolvendo os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes, ganhou novo capítulo com o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues — medida posteriormente suspensa pelo presidente do STF, Edson Fachin. O episódio, porém, vai muito além de disputa entre ministros ou de controvérsia jurídica sobre os limites de atuação da Polícia Federal. A pergunta que precisa ser feita é a quem interessa, de fato, enfraquecer ou interromper a condução de investigações que chegaram tão perto de interesses poderosos.

Não se trata de investigações triviais. Estão no tabuleiro as apurações sobre fraudes no INSS, o caso Banco Master, envolvendo Daniel Vorcaro, e a Operação Carbono Oculto, entre outras capazes de alcançar personagens de grande influência política e econômica. No caso do INSS, a própria Polícia Federal continua deflagrando operações e aprofundando apurações sobre esquemas que teriam causado ou poderiam causar prejuízos milionários aos cofres públicos. No Caso Master, a temperatura subiu ainda mais depois que Mendonça retirou o sigilo de documentos que continham referências a conversas atribuídas a Moraes e Vorcaro, mas não fez o mesmo em relação ao pedido de dinheiro para o filme Dark Horse.

Moraes, por sua vez, encaminhou a Fachin relatórios da PF que apontavam supostas irregularidades na atuação de Mendonça. É nesse ambiente que surge o afastamento de Andrei Rodrigues, pois Mendonça, talvez se achando ungido por Deus, não imaginava que também teria algo a justificar, quando se viu pego de calças curtas em conversa com Vorcaro e pelo recebimento de verbas milionárias de seu instituto de educação. Restou a ele, como contraponto, alegar ter sido alvo de monitoramento sistemático e ilegal por parte da inteligência da PF durante a condução de investigações que envolvem justamente Banco Master e fraudes no INSS.

Mas há ironia incômoda nessa história, pois quando a briga chega ao ponto de um ministro do Supremo afastar o chefe da Polícia Federal, a sociedade tem o direito — e talvez o dever — de perguntar se estamos diante da defesa das instituições ou de guerra pelo controle das mesmas. E é justamente aí que o personagem do “terrivelmente evangélico” ganha outra dimensão. Não porque a fé deva ser julgada, mas porque ninguém pode utilizar atributos morais ou religiosos como certificado antecipado de virtude pública. Santidade não se presume pelo discurso. Muito menos se transforma em salvo-conduto institucional.

Na mais alta Corte do país não existem santos. Existem ministros, com poderes extraordinários, responsabilidades extraordinárias, mas, sobretudo, seres humanos sujeitos a erros, conflitos, interesses e contradições. Por isso, é preciso desconfiar quando alguém se apresenta — explícita ou implicitamente — como dono da virtude, enquanto acusa os outros de representar o mal. O que está em jogo não é saber quem é o mais religioso, o mais conservador ou o mais progressista. É saber quem quer que as investigações avancem, doa a quem doer. Se há suspeitas envolvendo aliados, empresários, políticos, familiares ou pessoas próximas de qualquer grupo de poder, que sejam investigadas.

Da mesma forma, se há suspeitas sobre ministros do Supremo, que sejam igualmente esclarecidas, com o mesmo rigor. E se houver indícios de favorecimento a filhos, amigos ou aliados, que se investigue. Mas sempre com provas, devido processo e transparência — não com narrativas prontas. O Brasil já viu demais a transformação da Justiça em instrumento de disputa política. O Supremo não pode se tornar palco de briga de versões na qual cada lado utiliza a máquina institucional para atingir o outro. Porque, no fim, a verdadeira face de quem se apresenta como guardião da moralidade não está nas palavras que pronuncia, nem na fé que professa. Está na maneira como reage quando a investigação chega à sua porta. É aí que a aura começa a desaparecer. E talvez seja justamente nesse momento que o “terrivelmente evangélico” tenha de mostrar, mais do que nunca, se é apenas marca política ou se consegue sobreviver ao teste mais difícil de todos, que é o teste do poder sem privilégios.

*Luiz Henrique Campos

Jornalista e psicólogo.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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