Com o título “Mares e Lagoinha no abraço de afogados do STF”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, assinada pelo jornalista e psicólogo Luiz Henrique Campos. ” No abraço de afogados do Supremo, Moraes e Mendonça redescobriram a regra antiga da política de que ninguém nada sozinho — e, às vezes, quem parece oferecer a boia também está procurando uma”, expõe o colunista.
Confira:
Há abraços que são apenas abraços. Outros, dependendo de quem abraça, podem virar fotografia, mensagem de celular, áudio recuperado e, com alguma sorte para os investigadores, prova de que em Brasília até a distância entre a toga e o poder pode ser medida em graus de intimidade. O caso Daniel Vorcaro parece ter descoberto uma espécie de corredor lateral do Supremo Tribunal Federal (STF). De um lado, Alexandre de Moraes; do outro, André Mendonça. No meio, o banqueiro que caiu em desgraça e deixou para trás agenda aparentemente mais movimentada do que muito ministro de Estado.
Primeiro vieram as mensagens envolvendo Moraes. Conversas, encontros, negócios e contrato milionário com o escritório de sua esposa passaram a alimentar perguntas incômodas sobre a proximidade entre o ministro e o banqueiro. Não significa, por si só, prova de ilícito. Mas, em matéria de aparência republicana, certas coincidências têm o péssimo hábito de falar mais alto que os discursos oficiais. O fato, é que mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Banco Master, e o ministro do STF, Alexandre de Moraes, reveladas em 1º de setembro de 2026 com a anuência de André Mendonça, suscitam ainda mais suspeitas de corrupção passiva e advocacia administrativa, jogando Moraes às águas de mar revolto em meio aos tubarões.
A Polícia Federal identificou diálogos em que Vorcaro questiona Moraes sobre deixar o país dias antes de sua prisão e solicita encontros para discutir negócios investigados. Um contrato de R$ 131 milhões entre o Master e o escritório da esposa de Moraes também é alvo de análise. Especialistas jurídicos consideram que há indícios suficientes para iniciar investigação. Possíveis crimes em apuração incluem, além de corrupção e advocacia administrativa, lavagem de dinheiro e obstrução de justiça. As mensagens mencionam tentativas de interferência em processos e intimidações a autoridades. Embora não haja comprovação de favorecimento ilícito por parte de Moraes, juristas apontam que o teor das conversas justifica investigações mais aprofundadas.
Mas quando parecia que o episódio já havia produzido constrangimento suficiente ao STF, eis que surge André Mendonça — justamente o ministro que hoje relata o caso Master — admitindo ter recebido Vorcaro em março de 2025, em seu instituto, em São Paulo, já depois do ex-banqueiro ter sua imagem amplamente chamuscada por suspeitas. A explicação oficial é civilizada, dizendo tratar-se de conversa sobre precatórios. O Banco Master, segundo Mendonça, não teria sido assunto da reunião. O encontro teria durado entre 20 e 30 minutos. Até aí, tudo muito protocolar. O detalhe é que a porta de entrada para esse encontro passa pela Igreja Batista da Lagoinha.
A articulação envolveu o deputado e pastor Cezinha de Madureira (PL-SP) e pessoas próximas à igreja, conforme o próprio ministro relatou. E Vorcaro, como se sabe, tinha relações antigas com a família ligada à Lagoinha. Eis então a curiosa fotografia do Supremo. Um ministro sob pressão por sua proximidade com Vorcaro; e outro, responsável pelo processo, também tendo recebido o mesmo personagem. Um pelas ondas de Brasília, outro aparentemente pela ponte religiosa. É quando a velha máxima do poder volta à cena. Ninguém precisa guardar carta na manga se não houver, um dia, a possibilidade de precisar usá-la.
No Supremo, porém, as cartas parecem ter ganhado vida própria. E é justamente esse o aspecto mais irônico da história. A Corte que tantas vezes ensina ao país que instituições precisam ser independentes descobre, em seus próprios corredores, que ministros também são seres humanos — têm amigos, contatos, igrejas, advogados, políticos e, aparentemente, banqueiros interessados em conversar. A toga, ao que tudo indica, não produz isolamento espiritual, político ou social. E aqui surge a parte realmente deliciosa da história. Mendonça é conhecido por sua fé evangélica. Já houve quem o definisse, com orgulho, como “terrivelmente evangélico”. Pois bem.
A julgar pelos acontecimentos, nem mesmo os terrivelmente evangélicos estão completamente protegidos contra as tentações terrenas de Brasília, o que indica que Deus realmente está em toda parte. Inclusive nas agendas dos ministros do Supremo. O problema não é ser religioso. Tampouco é conhecer empresários, parlamentares ou advogados. O problema é quando essas relações começam a aparecer justamente em torno de personagens e assuntos que posteriormente chegam ao tribunal onde esses mesmos ministros exercem poder extraordinário. Porque a Justiça não precisa apenas ser feita. Precisa parecer independente.
E quando dois ministros do STF aparecem, por caminhos diferentes, orbitando o mesmo banqueiro que se tornou o centro de investigação bilionária, a pergunta deixa de ser apenas jurídica. Passa a ser institucional. Quem vigia os vigilantes? E, sobretudo, quem guarda as cartas? No jogo de poder, essa é a verdadeira moeda de Brasília. Hoje alguém aponta respeitosamente para a excelência do colega. Amanhã, a excelência pode descobrir que o respeitoso apontador também possui um arquivo, uma mensagem, uma fotografia ou simplesmente uma história capaz de mudar o tom da conversa. No abraço de afogados do Supremo, Moraes e Mendonça redescobriram a regra antiga da política de que ninguém nada sozinho — e, às vezes, quem parece oferecer a boia também está procurando uma.
No fim, resta ao cidadão assistir à disputa das excelências e torcer para que, entre mares, lagoinhas, togas e banqueiros, exista algum espaço onde a única carta sobre a mesa seja a Constituição, ou que pelo menos, está não vá ao fundo do poço nesse abraço de afogados.
*Luiz Henrique Campos
Jornalista e psicólogo e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.