“O poder é o sexo dos velhos de espírito” – Por Luiz Henrique Campos

Com o título “O poder é o sexo dos velhos de espírito”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, desta quinta-feira, assinada pelo jornalista e psicólogo Luiz Henrique Campos. “O poder, em sua forma ideal. digamos assim, deveria ser exercido como quem segura algo que pertence provisoriamente à sociedade, e não como quem finalmente encontrou aquilo que sempre julgou merecer”, expõe o colunista.

Confira:

A política nasceu, em sua melhor acepção, como a arte do consenso. Sua razão de existir estaria na capacidade de conciliar diferenças, administrar conflitos e construir caminhos para o bem comum. Aristóteles, em sua Política, estabelecia justamente a distinção que continua extraordinariamente atual. São justas as formas de governo que buscam a vantagem comum; degeneradas, aquelas que governam em benefício dos próprios governantes. Para ele, a política não poderia ser reduzida à disputa pelo mando, porque a comunidade política deveria existir em função da vida boa compartilhada.

Não se trata, portanto, de eliminar divergências, mas de encontrar, entre interesses distintos, aquilo que pode ser compartilhado pela coletividade. Hannah Arendt acrescentaria, quem sabe, perspectiva ainda mais radical. O poder, em seu sentido propriamente político, não pertence ao indivíduo que ocupa o cargo. Ele nasce da capacidade de pessoas diferentes agirem conjuntamente em torno de propósito público. O poder, nessa perspectiva, não é propriedade pessoal; é realidade produzida pela ação coletiva e pela capacidade de persuasão.

Essa ideia, entretanto, sempre conviveu com tensão inevitável, pois a política precisa do poder para transformar decisões em realidade. E é justamente nessa fronteira que reside seu maior perigo, pois quando o poder deixa de ser instrumento e passa a ser finalidade, pode corromper a própria essência da política. Disso resulta, que o poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente. Assim, quanto maior o poder, maior deve ser a desconfiança em relação àqueles que o exercem.

O cargo, enfim, não santifica seu ocupante. Ao contrário, quanto maior a autoridade, maior deve ser a responsabilidade moral de quem a detém. A linha que separa autoridade de autoritarismo, liderança de vaidade e serviço público de interesse pessoal é, muitas vezes, extremamente tênue. Basta pequeno deslocamento para que aquele que deveria exercer função em nome dos outros passe a enxergar os outros como instrumentos de sua própria vontade. Talvez por isso não bastassem, para quem pretende ingressar na política institucional, os tradicionais atestados de bons antecedentes. Seria igualmente necessário avaliar a disposição psíquica de quem deseja exercer o poder.

Não para criar espécie de tribunal moral sobre os indivíduos, mas para reconhecer que o exercício da autoridade exige maturidade, equilíbrio e, sobretudo, capacidade de conviver com os próprios limites. O problema não está em desejar poder. Sem algum desejo de poder, nenhuma ideia política consegue sair do papel. O problema começa quando o poder deixa de ser desejado como meio e passa a ser desejado como recompensa. É nesse sentido que a provocação deste título ganha significado: o poder é o sexo dos velhos de espírito.

Há pessoas para quem o poder produz espécie de excitação permanente. A posse do cargo, a reverência dos subordinados, o acesso privilegiado, a possibilidade de decidir sobre a vida alheia tornam-se verdadeiro afrodisíaco mental. Não se trata apenas de metáfora literária. A psicologia contemporânea do poder oferece pistas para compreender o fenômeno. Pesquisas mostram que a experiência de poder pode aumentar a atenção às recompensas, a sensação de liberdade e tendências comportamentais mais desinibidas.

O poder, portanto, não apenas permite fazer mais. Pode também alterar a maneira como aquele que o possui percebe recompensas, riscos e limites. O poder passa, então, a alimentar a sensação de importância que, sem ele, talvez não existisse. E é nesse ponto que a política corre o risco de sofrer sua mais silenciosa perversão. Max Weber percebeu algo semelhante ao distinguir aqueles que vivem para a política daqueles que vivem da política. A diferença não é absoluta, pois os dois impulsos podem coexistir, mas a distinção revela questão fundamental. A política pode ser uma causa à qual alguém dedica a própria vida ou pode transformar-se em meio permanente de existência, renda, prestígio e poder.

Weber observou ainda que o próprio exercício do poder pode proporcionar ao político satisfação interior, seja pela sensação de poder que experimenta, seja pela convicção de estar servindo a determinada causa. É nesse momento que acontece o desvirtuamento. O político deixa de buscar o poder para realizar uma ideia e passa a buscar ideias que justifiquem sua permanência no poder. A política deixa de ser construção coletiva e transforma-se em palco para a afirmação individual.

A causa torna-se pretexto; o cargo, finalidade; o eleitor, instrumento. Talvez seja esse o verdadeiro envelhecimento do espírito. Não a idade, mas a incapacidade de compreender que nenhuma autoridade é permanente. Não à toa, estudos sobre os partidos políticos e outras organizações democráticas, indicam a tendência de organizações complexas a concentrar o poder em grupos dirigentes. A democracia, dessa forma, não estaria protegida apenas contra o autoritarismo externo; mas precisa também vigiar permanentemente a concentração interna de poder.

O poder, em sua forma ideal. digamos assim, deveria ser exercido como quem segura algo que pertence provisoriamente à sociedade, e não como quem finalmente encontrou aquilo que sempre julgou merecer. A boa política exige desejo de poder suficiente para realizar, mas desprendimento suficiente para abandoná-lo. É talvez aí que esteja a verdadeira maturidade política, que é saber conquistar o poder sem se apaixonar por ele. Saber exercê-lo sem confundi-lo com a própria identidade, e, sobretudo, saber deixá-lo sem sentir que a própria existência perdeu sentido. Quando o poder se torna vício, o bem comum deixa de ser destino e passa a ser apenas discurso.

E, quem sabe, a democracia dependa justamente da diferença entre aqueles que querem o poder para fazer alguma coisa e aqueles que querem fazer qualquer coisa para permanecer no poder. No primeiro caso, temos política. No segundo, temos apenas poder.

*Luiz Henrique Campos

Jornalista, psicólogo e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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