“O excesso de futuro, a trilha da ansiedade e o tempo” – Por Luiz Henrique Campos

Hora de se planejar para o futuro. Foto: Envato

Com o título “O excesso de futuro, a trilha da ansiedade e o tempo”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, desta segunda-feira, assinada por Luiz Henrique Campos, jornalista e psícólogo. “O futuro precisa dialogar com o agora, e não travar com ele eterno bate-cabeça entre o “ser” e o “estar”. Afinal, é no presente que qualquer possibilidade começa a ganhar existência. Talvez o excesso de futuro seja justamente isso, ou seja, desejar tanto o que ainda não somos que deixamos de perceber aquilo que já podemos começar a ser”, expõe o colunista.

Confira:

Certa vez, alguém me procurou com expressão que, de imediato, chamou minha atenção: “Estou com excesso de futuro”. Ao tentar explicar o que queria dizer, contou que costuma afirmar que fará muitas coisas “um dia”: uma pós-graduação, uma mudança profissional, uma viagem, talvez ter um filho. Os projetos existiam, eram verbalizados, faziam parte de seus desejos, mas quase nunca se transformavam em primeiro passo concreto.

A frase revela condição cada vez mais comum em nossos dias, qual seja, a de viver em função do futuro que nunca chega. A partir dessa ideia, recorro a perspectiva da fenomenologia existencial, que busca ver o ser humano não apenas como aquilo que foi, mas também como aquele que se projeta. Somos seres lançados no mundo, atravessados por possibilidades e constantemente convocados a escolher. O futuro, portanto, não é um problema. Ele é parte constitutiva da existência.

O problema começa quando o futuro deixa de ser possibilidade e passa a funcionar como lugar de moradia. Quando dizemos “um dia eu faço”, podemos estar diante de projeto legítimo, mas também podemos estar criando espécie de suspensão da própria vida. O futuro se transforma em promessa permanente, enquanto o presente fica encarregado apenas de esperar.

É nesse ponto que o tempo, que poderia ser nosso aliado, passa a ser experimentado como perseguidor. E ai é aonde a coisa pega, pois a ansiedade frequentemente encontra terreno fértil nessa relação com o tempo. Pensamos no que ainda não aconteceu, antecipamos cenários, construímos versões de nós mesmos que ainda não existem e, muitas vezes, nos cobramos por não termos chegado a lugares que sequer começamos a percorrer.

Vivemos, então, curiosa contradição, pois queremos o futuro, mas não conseguimos habitá-lo; queremos realizá-lo, mas adiamos o movimento que poderia nos aproximar dele. Talvez isso ganhe dimensão ainda maior na nossa era pós-moderna. Somos constantemente estimulados a produzir, planejar, melhorar, alcançar e antecipar. Há sempre a próxima meta, a próxima experiência, a próxima versão de nós mesmos esperando para acontecer.

A questão, é que, nesse movimento, o hoje pode se tornar apenas intervalo entre aquilo que já fomos e aquilo que acreditamos que deveremos ser. A psicologia reconhece no passado, referencial importante para a compreensão da existência. Nossa história oferece elementos para conhecermos nossos modos de relação, escolhas, conflitos, possibilidades e limites. Olhar para trás pode nos ajudar a compreender como chegamos até aqui. Mas compreender o passado não significa viver nele. Da mesma forma, projetar o futuro não deveria significar abandonar o presente.

O futuro precisa dialogar com o agora, e não travar com ele eterno bate-cabeça entre o “ser” e o “estar”. Afinal, é no presente que qualquer possibilidade começa a ganhar existência. Talvez o excesso de futuro seja justamente isso, ou seja, desejar tanto o que ainda não somos que deixamos de perceber aquilo que já podemos começar a ser.

Uma pós-graduação começa, muitas vezes, por uma pesquisa. Um projeto começa por uma decisão. Uma mudança começa por um pequeno movimento. Até os grandes acontecimentos da vida dependem de alguma forma de presença diante do instante. O tempo não precisa ser vencido. Pode ser acompanhado.

Talvez a pergunta mais importante não seja “quando finalmente vou chegar lá?”, mas “o que posso fazer hoje na direção daquilo que desejo?”. Porque o futuro não está à nossa espera em algum lugar distante. Ele começa, silenciosamente, na maneira como escolhemos viver o agora. Se vale alguma coisa, ouça Belchior, “tome um refrigerante, coma um cachorro-quente”.

*Luiz Henrique Campos

Jornalista, psícólogo e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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