“A economia brasileira está preparada para o regime 5 x 2?” – Por Fabiano Mapurunga

“No Brasil, grande parte da discussão sobre jornada de trabalho ainda é conduzida de forma ideológica”, aponta o administrador Fabiano Mapurunga

Confira:

Vejo a proposta de adoção do regime de trabalho “5×2” — especialmente como alternativa a jornadas mais desgastantes — como um tema que precisa ser analisado com equilíbrio entre produtividade, competitividade e impacto social.

No Brasil, grande parte da discussão sobre jornada de trabalho ainda é conduzida de forma ideológica, quando deveria ser tratada sob uma ótica econômica e estrutural.

A redução da sobrecarga do trabalhador pode gerar efeitos positivos importantes:

– aumento de produtividade;

– redução de afastamentos;

– menor turnover;

– melhora da saúde mental;

– maior qualidade de vida.

Empresas mais organizadas tendem a produzir mais por hora trabalhada, e não necessariamente por excesso de horas. Países desenvolvidos já demonstraram que produtividade não depende apenas de carga horária, mas também de eficiência operacional, tecnologia e qualificação da mão de obra.

Por outro lado, no Brasil existe um fator crítico: o custo estrutural do emprego formal.

O país possui:

– elevada carga tributária sobre a folha;

– baixa produtividade média;

– excesso de burocracia;

– insegurança jurídica trabalhista;

– desigualdade entre setores econômicos.

Isso significa que uma mudança ampla de jornada, sem ganho real de produtividade, pode aumentar custos operacionais, pressionar a inflação e reduzir competitividade — principalmente para pequenas e médias empresas.

Setores como comércio, indústria, logística, saúde e serviços essenciais podem enfrentar aumento de custos com necessidade de novas contratações ou pagamento de horas extras.

O risco econômico é claro: se o custo do trabalho subir sem crescimento proporcional da produtividade, muitas empresas podem automatizar processos, reduzir contratações, migrar para informalidade, terceirizar operações e desacelerar investimentos.

Outro ponto importante é que o debate não pode ignorar as diferenças setoriais. Uma empresa de tecnologia possui dinâmica completamente diferente de uma indústria ou hospital. Aplicar modelos uniformes em economias heterogêneas costuma gerar distorções.

Na minha visão, o caminho mais inteligente seria incentivar modelos flexíveis, estimular produtividade, reduzir encargos sobre emprego, ampliar digitalização, modernizar relações trabalhistas e permitir acordos setoriais mais livres.

A verdadeira transformação econômica não está apenas em trabalhar menos horas, mas em produzir mais valor por hora trabalhada.

Se o Brasil conseguir combinar tecnologia, qualificação profissional, gestão eficiente, simplificação tributária e segurança jurídica, a redução gradual de jornadas poderá se tornar sustentável no futuro.

Mas implementar mudanças profundas sem atacar os gargalos estruturais da economia pode gerar efeitos relevantes sobre emprego, inflação e competitividade empresarial.

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