Com o título “A eleição brasileira beira a ficção. Um realismo fantástico do velho Gabo”, eis artigo de Francisco Bezerra, jornalista, radialista e escritor. “A eleição deste ano é marcado por uma concertação criminosa que envolve empresários, mídia, parlamentares e membros do Supremo Tribunal Federal para eleger Flávio Bolsonaro”, expõe o articulista.
“Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.” – Platão.
Confira:
Já se disse muitas coisas do Brasil. Que o Brasil é o país da impunidade. Que o Brasil não é um país sério. Que o Brasil é o país do carnaval. Que o Brasil não é para principiantes. São tantos Brasis dentro de um Brasil, que não faltam adjetivos, epítetos, galhofas, tragédias e comédias para definir o Brasil real. Fomos invadidos em 1500 e a historiografia nacional e internacional relata o fato como fruto de um acaso. Ou seja, O Brasil foi descoberto. Como se aqui já não houvesse uma nação de homens, mulheres, crianças, idosos com seus costumes, tradições, crenças e um jeito peculiar de viver.
Fomos invadidos novamente em 1808, quando o fujão D. João VI desembarcou por aqui trazendo toda a corte real portuguesa e suas quinquilharias. Sem saber Napoleão Bonaparte mudou a história do país ao ameaçar invadir Portugal por seu atrelamento à coroa Britânica. Subimos então de patamar. Deixamos de ser uma nação de degredados, de indígenas e escravos africanos para ser sede da dinastia de Bragança. O Rio de Janeiro passou então a ser uma Lisboa dos trópicos. A capital de um país ainda subjugado aos interesses colonialistas da coroa portuguesa, que por sua vez já era colônia da Inglaterra. Éramos assim colônia de uma colônia. Coisas que só acontecem aqui debaixo do equador.
O antropólogo Darcy Ribeiro escreveu um livro que só pelo título já descreve de cara o que é o Brasil. “Aos trancos e barrancos, como o Brasil deu no que deu,” é uma narrativa histórica de quase todo o século XX. Uma narrativa divertida, quase sarcástica, eu diria. Um livro revelador da alma brasileira. Uma alma feita de sincretismo puro. Uma mistura de raças, costumes, tradições e culturas diversas. Nosso país traz em seu DNA a crueldade do branco colonizador, a insubmissão do índio e a resiliência do negro africano. Misturou-se tudo num liquidificador da história e temos hoje uma nação diversa, alegre, emotiva, mística e profundamente complexa em seu caráter humano.
Os estamentos sociais são divergentes em seus interesses estratégicos. A elite ou os donos do poder não são dotados de patriotismo, não têm projeto de nação e só pensa em se dar bem. Outra característica dos habitantes da Casa Grande é o desprezo e o ódio aos pobres. A classe média é frívola, moralista e profundamente equivocada em seus objetivos. Ela sonha com a Casa Grande, menospreza os habitantes da
senzala e vivem com a corda no pescoço. Por sua vez, a classe baixa ou ralé, como preferem nominar seus algozes, não têm consciência de classe e por isso mesmo carregam o país continental nos ombros e se resignam com a má sorte e os opróbrios da vida.
O país do carnaval, como ocorre a cada quatro anos, tem encontro marcado com as urnas. A eleição deste ano reserva, em seu segundo turno, um confronto entre um filho do povo e um mandrião obsceno e mitomaníaco. Lula, com a carga de um passado de defesa da democracia, de igualdade social, é vítima de um conluio de nossa elite perversa com o crime organizado. O representante desta elite inescrupulosa é o lombroso Flávio Bolsonaro, um miliciano filho do presidiário Jair Bolsonaro.
A eleição deste ano é marcado por uma concertação criminosa que envolve empresários, mídia, parlamentares e membros do Supremo Tribunal Federal para eleger Flávio Bolsonaro. Todos envolvidos no maior escândalo financeiro da história deste país, no caso Banco Master. Grupo Globo, ministros Kássio Nunes, Mendonça Filho e a familícia Bolsonaro à frente são sócios do empresário Daniel Vorcaro. A eleição do miliciano representaria um livrou geral para toda essa teia de criminosos que fraudou o sistema financeiro nacional. Flávio presidente seria a instauração definitiva da República do Crime Organizado. História mais surreal que esta só na ficção de Gabriel Garcia Marques. E vamos em frente que atrás vem gente.
*Francisco Bezerra
Jornalista, radialista e escritor.