“Quais batalhas precisam vencer Elmano e Ciro? Ambos comandam ansiedades de curto prazo, ignorando efeitos”, aponta o jornalista Norton Lima, Jr
Confira:
1º erro estratégico. Roberto Cláudio ao judicializar a fala do Elmano de Freitas sobre o polêmico hospital de campanha no PV, além de abrir flanco para a volta da COVID, também deu brecha para a comparação das administrações em Fortaleza do grupo do Ciro e do PT. A comparação entre as Fortalezas contém a memória da “culpa do Sarto”, desadministração de triste lembrança, derrotada em 2024 ainda no 1º turno pela ineficiência: taxa do lixo, lixo nas ruas, buracos, IJF falido, Santa Casa abandonada etc.
2º erro. Ivo Gomes, o caçula do Ciro, abriu o flanco ao nacionalizar a campanha, relançando o surrado “Lula lá, Ciro cá”. Veja, fosse “Ciro cá, Lula lá”, vá lá. Ciro estaria em primeiro lugar — não em segundo plano, à sombra e à reboque do Lula.
3º erro. Ciro anuncia (chamando de “burra” a inteligência cearense) o Mossad como olhos na cabeça da futura segurança pública do Ceará. Bah, Che Guevara. Esqueceu a desmoralização do Mossad, surpreendido em sua própria fronteira, no ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 (1.139 israelenses mortos, 3.400 feridos e 251 reféns). E também esqueceu a ridicularização do capitão Wagner, em 2022, ao anunciar o FBI na segurança pública — proposta sem antropologia, portanto, fuleira, sem eira nem feira, meme negativo.
4º erro. Elmano começou a campanha dentro de uma favela dominada pelo Comando Vermelho, mesmo local onde o enterro de um traficante teve escolta policial. Expôs o ambiente insalubre do Pirambu, junto com a pobreza e miséria crítica do cearense que o governo tenta negar sem parar na surda propaganda.
5º erro estratégico. Para demonstrar sua força, Elmano gravou o palanque branco, em vídeos com os prefeitos aliados, em um cenário vazio, em branco, expondo a aposta nos currais eleitorais contra o voto livre e soberano.
Estou onde não penso. Penso onde não estou. A política seria (ou deveria ser) a continuação da guerra por outros meios, mas virou qualquer coisa por meios nenhum nesse confuso Ceará 2026 — sem general, sem plano, sem doutrina.
Os primeiros movimentos são desnorteados, à deriva. Clausewitz chamaria isso de confundir objetivo com meio — e cobraria a conta.
Sequer respeitam o básico: nunca abra uma frente que reative o front do adversário; nunca movimente-se de forma a expor a sua retaguarda não blindada; nunca puxe coluna em campo minado; nunca duplique comando.
De facto. A eficiência do Ciro, mais do que a traição do irmão Caim, foi o que tornou presunçosa a sua aventura presidencial. Basta lembrar o slogan demolidor do José Serra, “Ciro, mudança ou problema?”
Contratar uma agência de reputação internacional em baixa para resolver problema de competência estadual não serve nem para propaganda, imagine para a segurança pública. Também, esse lero-lero do lá&cá, a autonomia de Ciro como alternativa ao PT será percebida como anúncio de subordinação.
A falta de manejo simbólico do Elmano também não fica de fora do inventário de erros. Abrir a campanha dentro de território dominado pelo CV é entregar ao adversário, de bandeja, a imagem de conluio com o crime organizado e de liderança nos rankings nacionais de pobreza.
Toda guerra tem atrito entre o plano no papel e a execução no terreno, onde o imponderável impera, tudo custa mais e demora mais do que o previsto.
Ceará 2026 está esse curso rápido de erros — judicialização, “Lula lá, Ciro cá”, Mossad, favela, palanque branco. Nenhuma das campanhas opera com um estado-maior, no sentido militar mesmo, para pensar a sequência de batalhas desta campanha. Quais batalhas precisam vencer Elmano e Ciro? Ambos comandam ansiedades de curto prazo, ignorando efeitos de segunda e terceira ordem. Operam cada dia como fosse a guerra inteira. Perdem tempo, desperdiçam vastos recursos. Falta Clausewitz. Sobram Sartos, os culpados de sempre.
O serviço de informação policial cearense é excelente. Fosse ouvido, Wagner e Ciro não teriam confundido aquela viatura incendiada na Chifrelândia com os ônibus em chamas de 2019.
Carl von Clausevitz é o general estudado em West Point. Foi o livro de cabeceira do bravo e belo e invencível marechal Castelo Branco, “estrela de bronze” do exército americano, o estrategista que cortou a linha gótica do finado Hitler e chutou a bunda dos nazistas na terra do fascismo.
Tive uma longa conversa com o fidalgo Serginho Amizade, craque da amizade e da bola. Concluímos que Ciro fez 1 a 0 nos primeiros minutos; que Elmano botou o time em campo e tomou 2 a 0; mas que 2 a 0 é placar ingrato, porque pode virar 2 a 1, e assim o jogo pega fogo.
Norton Lima, Jr é jornalista