“A força do voto do trabalhador e o desafio da representação” – Por Gérson Marques

Gérson Marques de Lima é professor e subprocurador-geral do Trabalho. Foto: Divulgação

“A democracia não termina na eleição. Ela exige acompanhamento, fiscalização e participação permanente da sociedade”, aponta o Professor-Doutor Francisco Gérson Marques de Lima

Confira:

O Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) divulgou recentemente um levantamento que merece atenção: dos 512 deputados federais em exercício, 451 pretendem disputar a reeleição em 2026, quase 88% da Câmara. No Senado, 34 dos 54 senadores que concluem seus mandatos também querem voltar às urnas. E, claro, o Presidente da República também é candidato, além de outros políticos que integram cargos públicos nos governos. Há governadores, ainda, que também submeterão seus nomes à reeleição.

Isso demonstra que a maioria dos parlamentares e políticos deseja permanecer em cargos públicos, o que é legítimo. Em uma democracia, cabe ao eleitor decidir quem merece continuar. Mas essa realidade também exige uma reflexão: esses representantes têm correspondido às expectativas da população? O que fizeram em seus mandatos para merecerem mais uma reeleição?

Quando o assunto é o mundo do trabalho, a resposta parece preocupante. A classe trabalhadora é a maior força eleitoral do país. São milhões de brasileiros que vivem do próprio trabalho, sustentam suas famílias e movimentam a economia. Trabalham no setor privado e no setor público. Sim, os servidores públicos também são trabalhadores. Apesar disso, suas reivindicações frequentemente encontram resistência no Congresso.

O exemplo mais recente é a proposta de redução da jornada de trabalho na escala seis por um. Embora tenha mobilizado grande apoio popular e expressivo número de assinaturas em abaixo-assinados, a proposta avança lentamente diante da oposição de parte significativa dos parlamentares, os mesmos que pretendem reeleição.

Esse cenário leva a uma pergunta inevitável: se os trabalhadores são maioria nas urnas, por que suas pautas têm tanta dificuldade para prosperar no meio político?

É verdade que setores da direita mantêm posição contrária à ampliação de direitos trabalhistas. Eles representam o capital, que se enriquece às custas de direitos dos trabalhadores e não abre mão do poder de subjugar as classes mais humildes. Estranho é ver os trabalhadores e categorias de eleitores historicamente discriminados elegendo os seus algozes.

Mas também é legítimo questionar a atuação do atual governo, que veio da ala social. Embora tenha recebido amplo apoio dos trabalhadores e seu presidente seja candidato à reeleição, não apresentou uma agenda consistente de reformas trabalhistas nem promoveu medidas capazes de fortalecer a organização sindical. E simplesmente culpar o Congresso por essa omissão é muito cômodo e exclui a verdadeira responsabilidade do Executivo.

Assim, trabalhadores acabam encontrando poucas perspectivas entre as opções atuais, tanto no Congresso quanto no Executivo, sejam de direita ou de esquerda.

Por isso, as eleições de 2026 terão importância ainda maior. Mais do que escolher pessoas, os eleitores decidirão quais projetos desejam para o país. É fundamental conhecer o histórico dos candidatos, como votaram nos projetos de lei trabalhistas, qual legislação produziram, quem está envolvido em escândalos e roubalheira, observar como votaram em temas de interesse da população e avaliar se seus compromissos correspondem às necessidades da classe trabalhadora.

Se um político entende que os direitos trabalhistas devem ser reduzidos e que devem trabalhar sem segurança e sem qualquer proteção jurídica, por que os trabalhadores votariam nele?

Isso não depende apenas de escolhas conforme o pertencimento a determinados partidos políticos, porque parece que as alianças e os conchavos acabaram minando os compromissos de origem e descaracterizando ideologias partidárias.

Além disso, a democracia não termina na eleição. Ela exige acompanhamento, fiscalização e participação permanente da sociedade. E é após a eleição, quando os políticos ocuparão seus cargos, que eles decidirão projetos de lei, sem que os eleitores possam fazer nada durante seus mandatos. Serão longos quatro anos decidindo a vida dos cidadãos. Logo, é preciso ter cuidado na escolha de quem será colocado lá, no poder, para decidir sobre temas de interesse dos trabalhadores – não só dos celetistas clássicos, mas dos autônomos, dos plataformizados, dos terceirizados, dos pejotizados etc. É preciso que os sindicatos ajudem a classe operária a acordar para isso, a se conscientizar do poder que tem.

Pois se os trabalhadores representam a maioria do eleitorado, precisam transformar essa força numérica em força política. O voto continua sendo o principal instrumento para cobrar coerência, renovar mandatos quando necessário e fortalecer uma representação verdadeiramente comprometida com quem vive do próprio trabalho.

Parece-nos que a melhor alternativa é votar em projetos, mais do que em partidos; em pessoas com histórico de defesa dos interesses dos trabalhadores, mais do que em candidatos partidários de um ou outro partido.

Francisco Gérson Marques de Lima
Professor na UFC, Doutor, Subprocurador-Geral do Trabalho

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