“Se alguém passa o dia ouvindo que compromisso é prisão, que prosperar é pecado, que violência é glamour ou que tristeza é estética permanente, o cérebro aprende. E aprende rápido. A mente não distingue facilmente poesia de programação”, aponta o empresário Mauríio Filizola
Confira:
Sempre acreditei que a música não é apenas som. Ela é atmosfera. É presença invisível que ocupa o espaço antes mesmo que percebamos. Talvez por isso eu componha. Talvez por isso tenha lançado minhas canções em todas as plataformas de streaming como Filizola MC — MC de Mauricio Cavalcante, porque, no fundo, sempre senti que melodia é mais do que entretenimento: é energia organizada.
Nosso corpo é, em grande parte, água. E o som viaja na água com uma velocidade impressionante. Quando colocamos um fone de ouvido, não estamos apenas ouvindo uma música; estamos permitindo que cada célula nossa vibre naquela frequência. O que parece apenas distração pode ser, silenciosamente, formação.
Penso nisso como quem observa uma pedra lançada no lago. A onda se espalha. Não há como impedir. A única escolha é decidir que pedra arremessamos.
Há milênios, civilizações já compreendiam que o som cura, organiza, eleva. Não por superstição, mas por percepção. O som altera estados internos. A música pode acalmar um coração acelerado, pode fortalecer um espírito abatido, pode unir uma multidão em torno de um propósito.
Mas também pode fragmentar.
Vivemos uma geração que consome músicas como quem consome fast-food emocional. Letras que normalizam relações rasas, que romantizam o vazio, que transformam dor em identidade permanente. Não se trata de demonizar estilos — toda arte é expressão legítima — mas de reconhecer que aquilo que repetimos com emoção acaba moldando nossas crenças.
Quando cantamos, declaramos.
Quando repetimos, internalizamos.
Quando vibramos, sintonizamos.
Se alguém passa o dia ouvindo que compromisso é prisão, que prosperar é pecado, que violência é glamour ou que tristeza é estética permanente, o cérebro aprende. E aprende rápido. A mente não distingue facilmente poesia de programação.
Aprendi, compondo, que toda música carrega uma intenção. Algumas constroem pontes; outras ampliam abismos. Algumas despertam responsabilidade; outras oferecem anestesia.
Não é sobre censura. É sobre consciência.
Assim como escolhemos o que colocamos no prato, deveríamos escolher o que colocamos nos ouvidos. Porque aquilo que ouvimos diariamente cria trilhas invisíveis dentro de nós. Sons são sementes. E sementes, quando regadas pela repetição, criam paisagens.
Não acredito que a música seja vilã. Acredito que ela seja poder. E todo poder exige discernimento.
Talvez a pergunta não seja “que estilo você ouve?”, mas “que estado essa música cultiva em você?”. Ela desperta força ou conformismo? Clareza ou ruído? Propósito ou dispersão?
Como compositor, sei que cada verso pode elevar ou reduzir. Cada refrão pode ser escada ou labirinto. E, no fim, somos feitos das frequências que escolhemos habitar.
Porque a vida é também uma sinfonia.
E ninguém toca todos os instrumentos ao mesmo tempo — mas cada um decide qual melodia deseja repetir dentro de si.
Mauricio Filizola
Farmacêutico, empresário e presidente da CDL Fortaleza