Com o título “A importância das eleições do Brasil na Geopolítica e na Geoeconomia”, eis artigo de Célio Fernando Bezerra Melo, economista e vice-presidente da Academia Cearense de Economia.
Uma nação não se defende apenas em suas fronteiras, mas na consciência de um povo que decide, com soberania, o rumo do próprio destino.
Confira:
Há momentos em que a história observa um país com atenção redobrada, e o Brasil vive um desses instantes. A nova reconfiguração da globalização, nascida dos conflitos geoeconômicos e das disputas geopolíticas, transformou nossa eleição em acontecimento de repercussão que ultrapassa fronteiras. Olhares externos aguardam o desenho do nosso futuro, porque o que decidirmos ecoará muito além das urnas.
A geoeconomia se revela no avanço silencioso dos carros elétricos, das baterias e da inteligência artificial, movimentos que favorecem uma nação abençoada por uma das maiores reservas mundiais de minerais críticos. Nossa presença em novos meios de pagamento, como o Pix, já difundido entre os BRICS, sinaliza a capacidade de influenciar o sistema monetário internacional. O país guarda cerca de US$ 370 bilhões em reservas cambiais, boa parte ancorada no padrão dólar, e qualquer transição, ainda que breve, pode consolidar rupturas profundas. Nesse tabuleiro, as barreiras tarifárias apenas anunciam o tamanho da disputa por um lugar à mesa da diplomacia comercial.
Na mesma esteira, a geopolítica opera por narrativas e fricções diplomáticas de propósitos ambíguos, num verdadeiro bastidor de objetivos. Fiel à tradição de Michel Foucault sobre poder e discurso, percebe-se que toda narrativa carrega intenções. No mundo atual, a logística busca abrigo, na corrente de comércio, entre os Estados amigos, mesmo a maiores custos. A viabilidade dos empreendimentos é a segurança da continuidade dos fluxos.
E nas eleições do Brasil? A resposta parece clara, mas exige ser elucidada. A polarização ideológica tem endereços e interesses neste novo mapa, e encontrar defeitos em uma nação pode servir a propósitos específicos. Não se trata apenas da deformação de um sistema político preso a ciclos eleitorais curtos. Some-se a tensão entre os poderes, numa inversão que faria Montesquieu estremecer, em que parece que quem executa legisla, quem legisla julga e quem julga executa.
O Brasil precisa de reformas que ampliem a governança, e não se prestem apenas à governabilidade diante de muitos partidos, que criam outro governo ao se aglutinarem em nome do Centro. Nossos gastos ganham degraus nessa sobrevivência institucional, por emendas difusas, num país continental que precisa de uma espinha dorsal para o futuro. Todos precisam de recursos, mas os recursos precisam de um eixo, e a educação reúne as melhores condições para moldá-lo.
Este manifesto não julga quem está certo nem acusa outras nações, mas alerta contra grupos de interesse que se apropriam da própria democracia. A democracia pressupõe pluralidade, mas exige ética global, e a sustentabilidade jamais pode ocupar patamar inferior à busca hobbesiana por poder e riqueza.
Nossas riquezas convivem com fragilidades internas, mas cultura e resiliência nos unificam. A biodiversidade, a Amazônia, a Amazônia Azul, os minerais críticos, a margem equatorial e as energias renováveis passam pela eleição. Nossa maior defesa é o sufrágio universal, armado por ideias de uma nação que se protagoniza neste milênio e sabe que não são povos estrangeiros que cobiçam o Brasil, mas grupos e interesses espúrios. Que as urnas fortaleçam nossa soberania rumo a um país de oportunidades e justiça social.
*Célio Fernando Bezerra Melo
Economista e vice-presidente da Academia Cearense de Economia.