Com o título “A Lei Rouanet e o método Vorcaro de incentivo à cultura”, eis a coluna “Fora das 4 Lihhas”, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “Nada de “prezado senhor, solicito apoio institucional”. O novo protocolo cultural exige desenvoltura, intimidade performática e a confiança de quem pede milhões como quem pede fiado na padaria da esquina. É o incentivo por afeto, espécie de camaradagem pouco republicana, da malandragem, useira e vezeira sabe-se muito bem aonde”, expõe o colunista.
Confira:
Há anos, a Lei Rouanet virou o espantalho predileto de uma turma que jamais se deu ao trabalho de entender como ela funciona. É sempre a mesma ladainha. Um festival de indignação cenográfica contra mecanismo que exige edital, projeto, prestação de contas, transparência, análise técnica e fiscalização pública. Tudo muito burocrático, muito chato, muito civilizado para certos paladares afeitos à esperteza.
A Lei Rouanet, convenhamos, até peca muito pelo excesso de formalidade. Imagine o sacrifício de ter de justificar centavo por centavo, apresentar metas, demonstrar contrapartida social e, no fim, ainda se submeter ao escrutínio público. É quase uma afronta ao espírito nacional de quem acha que controle público virou perseguição ideológica.
Mas, eis que surge o método Vorcaro de incentivo à cultura. Muito mais simples, muito mais objetivo, muito mais adaptado ao gosto dos que sempre sonharam com menos Estado e mais intimidade financeira. Nada de papelada, planilha, parecer técnico ou comissão avaliadora. Basta um áudio. Se possível, carregado daquela espontaneidade chula que lembra uma reunião entre velhos comparsas de uma máfia de subúrbio, uma espécie de versão carioca de “O Poderoso Chefão”, só que sem a sofisticação dramática de Hollywood, já que estamos tratando de cinema.
Nada de “prezado senhor, solicito apoio institucional”. O novo protocolo cultural exige desenvoltura, intimidade performática e a confiança de quem pede milhões como quem pede fiado na padaria da esquina. É o incentivo por afeto, espécie de camaradagem pouco republicana, da malandragem, useira e vezeira sabe-se muito bem aonde. É a renúncia fiscal substituída pela amizade rentável. O mecenato reinventado pela lógica do “me arruma aí”.
Curioso é notar como os mesmos que viam comunismo em cada peça de teatro patrocinada, não demonstram qualquer desconforto diante dessa estética sonora da camaradagem pecuniária. Não há notas indignadas. Não há escândalo moral. Não há defesa do dinheiro público — ou privado, tanto faz. Talvez porque, no fundo, nunca tenham sido contra privilégios. Eram apenas contra a arte.
A Lei Rouanet sempre os incomodou porque carrega o defeito irreparável da institucionalidade. Já o método Vorcaro seduz pela autenticidade da gambiarra, do jeitinho, do “tamo junto”. No Brasil de hoje, a transparência causa suspeita.
Mas um pedido milionário em tom de conversa de boteco ainda é tratado como prova cabal de liberdade econômica. É a cultura nacional, afinal, encontrando novos patrocinadores — e velhos hábitos. Ou, como diria João Inácio Júnior: Será?
*Luiz Henrique Campos
Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”.