Com o título “A luta contra as bets deveria ser pauta de quem defende a família”, eis o título da coluna “Fora das 4 Linhas”, que tem como titular o jornalista e psicólogo Luiz Henrique Campos. “Mais importante que a disputa entre partidos, porém, é garantir que a família esteja no centro dessa discussão, porque combater os danos das bets não deveria ser bandeira de direita ou de esquerda, mas deveria ser compromisso de quem coloca a dignidade humana e a proteção da família acima do lucro da jogatina”, expõe o colunista
Confira:
Há temas que deveriam estar acima das disputas ideológicas e eleitorais. A defesa da família é um deles — e a luta contra a expansão das bets também deveria ser. Não se trata de demonizar quem aposta ocasionalmente, mas de reconhecer problema que já alcança milhares de lares. O Ministério da Saúde alerta para perdas financeiras, endividamento, sofrimento mental, violência doméstica e rompimento de vínculos familiares associados ao jogo problemático. Os números ajudam a dimensionar o drama. Entre brasileiros que já apostaram, estudo citado pelo Ministério da Saúde identificou 0,9 milhão de pessoas em situação de jogo de risco ou problemático.
É justamente aí que está uma das faces mais perversas desse fenômeno. Para muitas famílias pobres, o dinheiro destinado à aposta não é dinheiro sobrando. É dinheiro que poderia comprar comida, pagar uma conta, comprar um remédio ou ajudar a garantir o material escolar dos filhos. O celular transformou a aposta em algo disponível praticamente a qualquer hora e em qualquer lugar. Não é mais necessário sair de casa para procurar um jogo, pois basta tocar na tela. O Banco Central estimou que as empresas de apostas receberam, em média, R$ 20,8 bilhões por mês entre janeiro e agosto de 2024. Mesmo que parte desse dinheiro retorne aos apostadores em prêmios, trata-se de fluxo financeiro gigantesco.
E é preciso perguntar quanto desse dinheiro deixa de circular em supermercados, restaurantes, comércio, serviços e outras atividades produtivas. Também é preciso olhar para a promessa de que as bets seriam grandes geradoras de empregos e riqueza. O setor regulado afirma ter potencial para sustentar cerca de 15 mil empregos diretos e indiretos e gerar bilhões em tributos. São números que devem ser considerados no debate, mas não encerram a discussão. Uma atividade econômica não pode ser avaliada apenas pelo faturamento, pelos empregos que cria ou pelos impostos que recolhe. É necessário contabilizar também seus custos sociais.
Estudos estimam em R$ 38,8 bilhões anuais as perdas econômicas e sociais associadas às apostas e aos jogos de azar, incluindo gastos com saúde, desemprego e afastamento do trabalho. Quando uma família perde renda para a aposta, o prejuízo não termina no aplicativo. Ele chega à mesa de jantar, à relação entre marido e mulher, à criação dos filhos e, muitas vezes, à saúde mental. Por isso, a discussão sobre as bets não deveria ser tratada apenas como uma questão de mercado. É também uma discussão sobre que tipo de sociedade queremos construir. No campo político, o tema entrou definitivamente na agenda eleitoral. O governo discute medidas que podem aumentar as restrições à publicidade, proibir determinados jogos ou chegar ao veto total das apostas digitais.
Ao mesmo tempo, clubes de futebol e setores econômicos ligados às bets defendem a importância financeira do mercado. Diante disso, quem disputar eleições e quem ocupar cargos públicos terá de deixar claro qual é sua posição sobre o assunto. Mais importante que a disputa entre partidos, porém, é garantir que a família esteja no centro dessa discussão, porque combater os danos das bets não deveria ser bandeira de direita ou de esquerda, mas deveria ser compromisso de quem coloca a dignidade humana e a proteção da família acima do lucro da jogatina.
*Luiz Henrique Campos
Jornalista e psicólogo.