Com o título “A Matemática Eleitoral”, eis artigo de Gera Teixeira, jornalista e empresário. “Impressiona a evolução patrimonial de certos candidatos que pedem mais um mandato. Entram na vida pública com uma casa, um automóvel usado e poucas economias. Anos depois, reaparecem com imóveis, terrenos e aplicações, numa prosperidade capaz de deixar o juro composto com complexo de inferioridade”, expõe o articulista.
Confira:
Não se sabe se é coincidência, obra do acaso ou uma dessas graças que só a política brasileira produz sem corar. Impressiona a evolução patrimonial de certos candidatos que pedem mais um mandato. Entram na vida pública com uma casa, um automóvel usado e poucas economias. Anos depois, reaparecem com imóveis, terrenos e aplicações, numa prosperidade capaz de deixar o juro composto com complexo de inferioridade. A frase “eu vim pra confundir, não pra explicar” cai como luva.
Durante muito tempo foi posta na boca de Chacrinha, talvez porque combinasse com a buzina, o bacalhau e a alegria do caos. A autoria, porém, é de Tom Zé e Elton Medeiros. A política, como se vê, confunde até quando tenta explicar a confusão.
Malba Tahan, com toda a sabedoria de “O Homem que Calculava”, teria dificuldade diante desse prodígio. Não por falta de números, mas porque aqui os números parecem ter vida própria. Multiplicam-se no escuro, reproduzem-se em cartório e amanhecem nas declarações patrimoniais com a serenidade de quem não deve explicação.
É quase um milagre, embora milagre, antigamente, exigisse testemunha. E falamos apenas do declarado. Daquilo que aceita aparecer à luz do dia, penteado, perfumado e com firma reconhecida. Se a fotografia já assusta, imagine-se o álbum guardado na gaveta. O patrimônio oficial talvez seja apenas a sala de visitas. Os outros cômodos permanecem trancados.
Enquanto isso, o brasileiro empobrece. E dói admitir que muitos dos mais castigados reconduzem os mesmos personagens ao poder. Não porque apreciem o próprio sofrimento. Votam sob a pressão da fome, do favor convertido em dívida, do assistencialismo usado como cabresto e de uma ignorância cuidadosamente cultivada por quem lucra com ela.
No sertão, isso assume a forma cruel de uma Síndrome de Estocolmo eleitoral: a vítima agradece ao carcereiro pelo copo d’água que ele próprio escondera.
Quando o país ensaiou passar parte dessa história a limpo, com a Operação Lava Jato, houve excessos, erros e contradições. Mas houve também o susto de ver o mecanismo exposto. Então chegou a nossa velha roda-viva, jurídica, política e corporativa, e “carrega o destino pra lá”. No fim, o candidato volta ao palanque, o patrimônio volta maior e o eleitor volta para casa com a mesma conta de luz.
Deve haver uma fórmula para isso. Só não está nos livros de Malba Tahan. Talvez esteja escrita, em letras miúdas, no verso do título de eleitor.
*Gera Teixeria
Jornalista e empresário.