“À Nossa Fortaleza” – Por Mirelle Costa

Idealizado pela Fundação Sintaf, o livro reúne 49 escritores e 18 artistas

Fortaleza chega aos 300 anos sendo celebrada de muitas formas: shows, eventos, discursos, agendas oficiais. Tudo necessário, legítimo, mas há algo de diferente quando uma cidade é celebrada pela palavra, pois a palavra se propõe a permanecer.

E talvez seja exatamente isso que o livro À Nossa Fortaleza propõe: Um tempo de permanência.

Idealizado pela Fundação Sintaf, braço cultural do Sindicato dos Fazendários do Ceará, o livro reúne 49 escritores e 18 artistas visuais em um esforço coletivo que, à primeira vista, poderia parecer apenas comemorativo. Mas não é. É afetivo. E, mais que isso, é político no melhor sentido da palavra: o de construir memória.

Sob a edição do escritor cearense ganhador do jabuti na categoria Poesia e Livro do Ano em 2018, Mailson Furtado, a obra se expande para além da literatura tradicional e acolhe múltiplas linguagens — crônica, poesia, cordel, canção, gravura. Uma Fortaleza que não cabe em um só gênero, tampouco em um só olhar.

“É um livro que reúne diversas obras artísticas celebrando essa data única para essa cidade importantíssima. É um grande presente que a Fundação Sintaf oferece, um registro poético e artístico dessa celebração”, conta o editor-geral do livro, Mailson Furtado.

O que chama atenção nos bastidores do livro é justamente o seu crescimento orgânico. Primeiro, esmero com a estética. Uma capa representativa que chama a atenção. Uma publicação de luxo que, nas palavras do diretor-geral da Fundação Sintaf (Sindicato dos Fazendários do Ceará), Liduíno de Brito, nasceu modesta, mas a sensibilidade da proposta fez a obra conquistar o seu espaço. E talvez essa seja uma das maiores virtudes do livro: entender que nenhuma cidade se esgota.

O diretor geral da Fundação Sintaf reflete sobre as diferentes formas de surgimento das cidades, seja por mitos, como no caso de Tenochtitlán, seja pelas necessidades humanas e pela relação com a natureza, especialmente os rios. A partir dessa ideia, o autor faz uma analogia com Fortaleza, que celebra seus 300 anos em 2026, destacando a importância do riacho Pajeú na formação da cidade e defendendo sua revitalização.

O texto de Liduíno de Brito também contextualiza o crescimento urbano e os desafios enfrentados pelas grandes cidades, como a Cidade do México, ressaltando a necessidade de reconectar-se com suas origens naturais. A obra é apresentada como uma homenagem artística à capital cearense, reunindo diversas expressões — literatura, artes visuais e música — para celebrar sua história e identidade.

Mais do que um livro, trata-se de um presente à cidade, marcado por sentimentos de amor, crítica e pertencimento. O autor relembra a transformação de Fortaleza ao longo do tempo e convida o leitor a uma experiência sensível e afetiva, valorizando a memória, a cultura e o compromisso com um desenvolvimento social e ecológico.

Liduíno de Brito, diretor geral do Sintaf, e Adriana Almeida, vereadora de Fortaleza

Eternizar o que é movimento

O jornalista e colaborador da Fundação Sintaf, Tarcísio Matos, toca em algo essencial ao lembrar que Fortaleza já foi celebrada de muitas formas, mas que eternizá-la pela literatura é um gesto singular. “Fortaleza teve várias comemorações, então a gente eternizou de muitas formas, mas eternizar com a literatura é maravilhoso. A multiplicidade de temas é algo que referencia essa obra”, conta.

Jornalista Tarcísio Matos

Já o secretário Artur Bruno amplia essa perspectiva ao lembrar que o livro percorre simbolicamente a história da cidade — de Vicente Pinzón à contemporaneidade — reunindo bairros, praias e vivências em um mesmo corpo narrativo. Uma Fortaleza múltipla, como ela é. “Nossos bairros, nossas praias, tudo está representado simbolicamente nesse livro”, conta Artur Bruno que também é um dos autores.

“Eu faço uma síntese da história de Fortaleza em três páginas, desde Vicente Pinzón até Evandro Leitão”, conta o presidente do Ipplan de Fortaleza.

Há algo de íntimo em eternizar a memória de Fortaleza por meio da literatura. Algo que escapa às formalidades das celebrações oficiais e se aproxima daquilo que realmente fica. Mais do que um registro, o livro se torna um mapa afetivo. E há também o olhar sensível de quem entende a literatura como gesto coletivo.  “É a nossa Fortaleza sob o olhar de diversas pessoas. A Câmara Municipal abre as portas para esse projeto”, conta Adriana Almeida, vereadora de Fortaleza.

Entre tantas histórias, uma memória pessoal se destaca: a do secretário de Planejamento e Gestão do Ceará, Alexandre Cialdini, que chegou a Fortaleza ainda criança e percorreu diferentes bairros ao longo da vida. Ele contribuiu para a publicação com um artigo.

“Antes de falarmos na obra, é importante destacar que os primeiros programas de educação fiscal tiveram como nascedouro o Sintaf. Agora, estamos celebrando que o Sintaf e a Fundação Sintaf tiveram essa percepção muito sensível para nos presentear com essa obra. Meu texto mostra um sobralense que desenvolveu uma relação de afeto com a Praia de Iracema, Monte Castelo, Centro, Praia do Futuro e o Cambeba. A cidade como algo que não apenas habitamos — mas que também nos forma”, conta Cialdini.

Alexandre Sobreira Cialdini, secretário do Planejamento e Gestão do Ceará, representando o governador do Estado do Ceará, Elmano de Freitas (PT)]

E talvez seja isso que o livro registra com mais força: não uma Fortaleza turística, nem apenas histórica, mas uma Fortaleza vivida. Aquela que se infiltra nas histórias individuais até se tornar parte de quem somos.

Um presente — e um convite

À Nossa Fortaleza é, como disseram seus organizadores, um presente. Mas não no sentido simbólico ou material. É presente porque exige presença: de quem escreveu, de quem organizou, de quem agora lê.

E há algo bonito nisso: os autores não foram remunerados financeiramente. Receberam exemplares. Receberam, sobretudo, a possibilidade de fazer parte de um registro coletivo da cidade.

Num tempo de urgências e superficialidades, isso diz muito.

Fortaleza, aos 300 anos, ganha muitos palcos. Mas poucos registros terão a capacidade de atravessar o tempo como um livro.

E este, ao que tudo indica, não pretende encerrar a cidade em páginas — mas abri-la.

Se você quiser conhecer Fortaleza por dentro — pelas suas contradições, afetos, memórias e invenções — vale a pena mergulhar nessa obra, afinal, nenhuma cidade existe sem as histórias que contamos sobre ela.

Renato Pessoa foi um dos escritores participantes da obra. Conhecido pela poesia, se aventurou pela primeira vez na crônica dentro da obra. E talvez justamente por isso sua fala carregue esse frescor de descoberta. “Celebrar a cidade pela literatura é celebrar a cidade pela arte. Pra mim, foi uma alegria. Eu tenho Fortaleza, eu sou Fortaleza. Fortaleza me fez. Não foi um texto difícil, foi um texto muito prazeroso”, comemora o poeta. Talvez seja isso que o livro capture com tanta força: o prazer de dizer a cidade. Mesmo quando ela é complexa, contraditória, atravessada por tensões.

Renato Pessoa, poeta

Pra mim, “Fortaleza é Mulher”. Esse é o nome da crônica que escrevi para essa publicação. Quando criança, pensava ser esse o nome da minha mãe de tanto que ouvia falar “Sua mãe é Fortaleza”. Pra mim, todas nós fortalezenses temos esse título. Foi uma delícia apresentar a Minha Fortaleza pra vocês, a Fortaleza do Centro, da Varjota, do Benfica. Durante o percurso da escrita, também me enxerguei Fortaleza.

Eu, Mirelle Costa

Autores das crônicas, poesia, poemas e músicas:

[em ordem alfabética] 1. Acrísio Sena [p. 28] 2. Alan Mendonça [p. 52] 3. Alexandre Cialdini [p. 147] 4. Ana Márcia Diogénes [p. 15] 5. Antônio Miranda [p. 42] 6. Argentina Castro [p. 66] 7. Arminda Serpa [p. 140] 8. Artur Bruno [p. 23] 9. Aurelina Farias [p. 100] 10. Baticum Proletário [p. 128] 11. Brennand Bandeira [p. 64] 12. Bruno Paulino [p. 70] 13. Carlinhos Crisóstomo e Sebastião de Paula [p. 96] 14. Chico Araújo [p. 26] 15. Cícero Cavalcante [p. 47] 16. Cicinato Ferreira [p. 73] 17. De Assis Diniz [p. 86] 18. Dércio Braúna [p. 160] 19. Dulce Ane Pitombeira [p. 149] 20. Elias de França [p. 29] 21. Emanuela Ribeiro [p. 75] 22. Evandro Leitão [p. 18] 23. Fabrízio Gomes [p. 108] 184 24. Falcão [p. 88] 25. Gláucia Lima [p. 144] 26. Grecianny Carvalho Cordeiro [p. 91] 27. Iara Palácio [p. 139] 28. Idilvan Alencar [p. 82] 29. Isabel Pires [p. 134] 30. Joelina Amélia [p. 93] 31. Kelsen Bravos [p. 77] 32. Kleber Silveira [p. 39] 33. Klévisson Viana [p. 114] 34. Lisiane Forte [p. 156] 35. Luiz Carlos Diogénes [p. 132] 36. Mailson Furtado [p. 57] 37. Márcia Ximenes [p. 79] 38. Mirelle Costa [p. 44] 39. Nazário Viana [p. 60] 40. Nilson Fernandes [p. 152] 41. Patricia Cacau [p. 84] 42. Paulo Fraga-Queiroz [p. 110] 43. Raymundo Netto [p. 62] 44. Renato Pessoa [p. 21] 45. Rosa Morena [p. 138] 46. Tarcísio Matos [p. 104] 47. Wildys Oliveira [p. 34] 48. Zélia Sales [p. 154]

ILUSTRAÇÕES DA OBRA

[por ordem de aparição no livro] [p. 12-13] Vlamir de Sousa Silva, Catedral [p. 14] Marcos Bandeira, Theatro José de Alencar [p. 16-17] João Lustosa, Farol do Mucuripe [p. 32-33] Alê Matos, Praça do Ferreira [p. 50-51] Sandra Amorim, Igreja de Nossa Senhora da Prainha [p. 58-59] Felipe Landim, Mercado São Sebastião [p. 68-69] Henrique Saraiva, Faculdade de Direto [p. 80-81] Francisco Chagas, Praça dos Leões [p. 98-99] Felipe Lima, Igreja Pequeno Grande [p. 106-107] Albio Sales, Igreja do Rosário [p. 112-113] Haoniy R. Bernardo, Centro Dragão do Mar [p. 126-127] Cristina Castro, Ponte do Rio da Barra do Ceará [p. 130-131] Lia Costa Mamede, Estádio Castelão [p. 136-137] Zezé de Sales, Justiniano de Serpa (Escola Normal) [p. 142-143] Agripino Costa Neto, Estoril [p. 158-159] Francisco Wagner, Caixa D’água da Faculdade de Direito [p. 178-179] Valber Benevides, Fortaleza 300 anos [Sobrecapa] Pascelli, 300 anos Fortaleza

Mirelle Costa: Mirelle Costa e Silva é jornalista, mestre em gestão de negócios e escritora. Atualmente é estrategista na área de comunicação e marketing. Possui experiência como professora na área de jornalismo para tevê e mídias eletrônicas. Já foi apresentadora, produtora, editora e repórter de tevê, além de colunista em jornal impresso. Possui premiações em comunicação, como o Prêmio Gandhi de Comunicação (2021) e Prêmio CBIC de Comunicação (2014). Autora do livro de crônicas Não Preciso ser Fake, lançado na biblioteca pública do Ceará, em 2022. Participou como expositora da Bienal Internacional do Livro no Ceará, em 2022.

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