Confesso que ainda me emociono quando penso no caminho que o Cafezim com Literatura percorreu até aqui.
CA-RAM-BA
Se a palavra jornada está cansada (igual atravessar), escolho o sinônimo caminho.
Sinto um orgulho genuíno por esse caminho trilhado com tantos desafios.
O podcast nasceu em novembro do ano passado como um espaço de conversa sobre livros, autores, mercado editorial e formação de leitores. Começou no YouTube e no Spotify, em um ambiente digital onde fui, aos poucos, construindo uma comunidade de pessoas apaixonadas pela literatura. Agora, o programa dá um novo passo: estreia neste sábado, das 11h ao meio-dia, na programação da Fortaleza FM 90,7, emissora da Câmara Municipal de Fortaleza.
E talvez seja justamente isso que mais me alegra: perceber a literatura ocupando novos espaços.
Ao longo desses meses, tive a oportunidade de entrevistar escritores independentes, nomes importantes como Marcelino Freire e Mailson Furtado, além de conversar com representantes da cadeia produtiva do livro sobre bibliotecas comunitárias, clubes de leitura, premiações literárias, falar de luto na literatura e ainda trazer bons representantes dos mais variáveis gêneros como poesia, romance e cordel. Sempre acreditei que falar de literatura é também falar de memória, identidade, afeto e pertencimento.
Sair das plataformas digitais e chegar ao rádio aberto tem um significado muito forte para mim, como jornalista. O rádio ainda alcança públicos diversos, entra nas casas, acompanha trajetos, aproxima pessoas, faz boa companhia. E fazer isso em uma emissora pública e educativa amplia ainda mais a potência do projeto.
Durante nossa conversa, Moema Soares, coordenadora de Comunicação Social da Câmara Municipal de Fortaleza, falou algo importante que eu preciso dividir com vocês:
“Eu acho que esse é o papel das emissoras públicas e legislativas como é o caso da nossa: dar espaço aos cearenses, aos fortalezenses, para que tanto na música, na literatura, em todas as artes e culturas, a gente abra espaço para esse público que muitas vezes não encontra visibilidade nos veículos comerciais. Quando você apresentou esse projeto voltado para a literatura do nosso público, do nosso escritor, isso encheu os nossos olhos, porque a gente precisa valorizar cada vez mais o pessoal da nossa terra.”
Moema também destacou a importância das políticas públicas de incentivo cultural e o fortalecimento das feiras literárias no Ceará.
“A gente vê a Secult Ceará, a Secultfor, investindo em feiras literárias, levando literatura para os municípios, criando editais e possibilidades. Isso é essencial porque é cada vez mais difícil investir em cultura sem incentivo público. E nós, enquanto
emissora pública e legislativa, precisamos abrir esse espaço para que artistas, escritores e produtores culturais tenham visibilidade e alcance.”
Achei especialmente interessante quando ela falou sobre a função da comunicação pública para além da cobertura política.
“As pessoas às vezes pensam que uma rádio legislativa só fala de política ou de vereador. Claro que o legislativo é nossa prioridade, mas existe uma gama enorme de possibilidades para aproximar o público. Quando abrimos espaço para a música cearense, para a literatura, para o cinema e para a diversidade cultural, criamos uma ponte com a população. É uma troca muito positiva.”
A diretora da Fortaleza FM, Jocasta Pimentel, também reforçou como o Cafezim com Literatura dialoga com a proposta educativa da rádio.
“Quando essa proposta foi apresentada, ela tinha muito a ver com a finalidade da Fortaleza FM. Nós somos uma concessão educativa e temos como premissa trazer conteúdos que agreguem para a difusão da educação — e a literatura é exatamente isso. Quando a gente traz um podcast que discute literatura em nível regional, dando espaço para autores e para quem movimenta e fomenta a literatura no Ceará, isso se torna extremamente importante para a nossa programação.”
Ela também comentou sobre o momento atual da literatura no Brasil e sobre como a leitura continua mobilizando pessoas.
“Há alguns anos existia aquele discurso de que as pessoas estavam deixando de ler. Hoje a gente vê um movimento diferente: crescimento das feiras literárias, autores independentes ganhando espaço, clubes de leitura, debates sobre livros nas redes sociais. Existe uma efervescência muito bonita acontecendo no mercado literário brasileiro.”
Jocasta Pimentel ainda revelou sua paixão pelas crônicas.
“Eu admiro muito o gênero da crônica porque ele consegue transformar o cotidiano em narrativa. Sempre acompanhei cronistas como Ayrton Monte e gosto muito dessa capacidade que a literatura tem de aproximar a gente da vida comum, das pequenas histórias. Atualmente, celebro as obras e projetos da escritora e jornalista Juliana Marques, por sua leveza e profundidade que comungam de maneira tão genuína”, conta Jocasta.
Ouvir essas falas me fez perceber ainda mais a responsabilidade e a alegria desse novo momento. O Cafezim com Literatura chega ao rádio carregando muitas vozes: escritores, leitores, editoras independentes, mediadores de leitura, bibliotecas comunitárias e pessoas que acreditam que a literatura continua sendo um espaço de encontro.
E talvez seja exatamente isso que mais me move: continuar criando espaços onde os livros possam ser escutados também fora das páginas.
Você vai ouvir comigo?
Lançamento de livro
A escritora e jornalista cearense Juliana Marques lança, no próximo dia 23 de maio, o livro Até você chegar, obra que aborda maternidade, perdas gestacionais, infertilidade e recomeços. O lançamento acontece a partir das 17h, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza, com entrada gratuita. Publicado pela Editora Minimalismos, o livro nasceu a partir das experiências pessoais da autora com o luto materno e acompanha a trajetória de um casal em busca do sonho de ter um filho. A programação contará ainda com bate-papo mediado pela jornalista Ariane Cajazeiras, apresentação musical da cantora Brianna Castilho e sorteio de exemplares.
Com 100 páginas, a obra propõe uma reflexão sobre temas ainda pouco debatidos socialmente, como infertilidade e perdas gestacionais. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 17,5% da população adulta global enfrenta dificuldades relacionadas à infertilidade. Além da atuação na literatura, Juliana Marques também mantém a newsletter Prosa & Páginas e integra o coletivo feminino Tear de Histórias, voltado à valorização da crônica.