Entre os dias 7 e 9 de maio, o município de Baturité recebeu a feira literária promovida pela Secult Ceará, que reuniu escritores cearenses, leitores e instituições ligadas ao livro e à leitura. O evento contou com estandes de obras produzidas por autores do Ceará, muitos deles presentes para conversar com o público, autografar livros e compartilhar experiências sobre literatura, território e formação de leitores.
A programação reuniu diferentes públicos e promoveu encontros entre autores independentes, leitores locais e visitantes de outros países. Um dos momentos que chamou atenção foi o encontro entre um leitor mexicano e autores cearenses presentes na feira. Interessado principalmente por poesia, ele levou para casa uma obra da escritora Ana Márcia Diógenes.
“A literatura, eu acho, é uma conversa sempre entre o autor e o leitor. Então estabelecer um vínculo entre eles é muito importante. Eu gosto de ler poesia, prosa, gosto muito de leitura. E agora encontrei muita poesia boa aqui, então vou tentar levar para o México”, afirmou Luiz, o visitante.
A escolha do livro chamou a atenção da autora, que refletiu sobre os caminhos inesperados da leitura e do mercado editorial.
“As pessoas dizem que poesia não vende. E que homem não consome tanta poesia como consumiria um romance. Aí vem um homem mexicano, a gente mostra vários livros, romance, infantil, juvenil, artesanal, e ele volta justamente para o primeiro livro de poesia que eu mostrei”, comentou Ana Márcia Diógenes.
Para a escritora, o encontro reafirma que cada leitor cria sua própria relação com a literatura. “Quando a gente escreve, a gente tem um propósito. Agora, quem compra tem o seu próprio propósito. A gente nunca vai poder duvidar da escolha do leitor, porque ele escolhe a partir da vida dele, do que quer ver, do que está curioso, do que quer presentear. Mas aquele livro era para ele mesmo, porque pediu autógrafo no nome dele”, destacou a escritora semifinalista do prêmio Oceanos com a obra “Buraco de dentro”.
A Biblioteca Pública Estadual do Ceará (Bece) também participou da programação levando exemplares do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas. Segundo Ana Karine Garcia, historiadora e coordenadora de Acervo e Pesquisa da Bece, os livros expostos não pertencem diretamente ao acervo da biblioteca, mas fazem parte de obras que chegaram ao sistema por meio de editais culturais, como a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e a Lei Paulo Gustavo.
De acordo com a coordenadora, a seleção buscou valorizar produções ligadas à identidade cultural da região do Maciço de Baturité. Entre os temas apresentados estavam obras sobre mestres da cultura popular e publicações relacionadas à história da ferrovia, elemento importante para a formação histórica da cidade.
“A gente tentou escolher livros que representassem a região onde a gente está. Então estamos aqui em Baturité falando de livros que tratam sobre os mestres da cultura, sobre a ferrovia, que faz parte da história da cidade”, destacou Ana Karine.
Além da exposição, os visitantes puderam folhear os exemplares e conhecer as obras disponíveis no catálogo da Bece. A coordenadora ressaltou ainda que os livros podem ser acessados pelo público por meio da biblioteca e das bibliotecas públicas e comunitárias cadastradas no sistema estadual.
Entre os autores independentes presentes na feira estava a geoeducadora e escritora Rosilene Xavier, que dividiu estande com outros escritores e destacou a importância do apoio da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult Ceará) para ampliar a circulação das produções independentes.
Com mais de 29 consultorias realizadas, mais de 300 livros vendidos e vencedora do Prêmio Caminhos Amefricanos 2024, Rosilene afirmou que as
feiras literárias funcionam como vitrines para autores que publicam por editoras independentes e de pequeno porte.
“Eu acho que o espaço das feiras é uma vitrine para quem tem uma produção independente como eu. Cada cidade tem um público, um sentimento, uma interação diferente com os leitores. E a gente recebe tanto pessoas do local quanto visitantes de outros países”, comentou.
A escritora explicou ainda que leva para as feiras um acervo voltado para poesia e crônicas produzidas por migrantes de países de língua espanhola, o que tem aproximado leitores estrangeiros das obras.
“Às vezes a pessoa não compra o livro, mas cria um contato, acompanha digitalmente, conhece o trabalho. Então, para além da venda, as feiras fazem com que a gente chegue a leitores muito distintos, de várias faixas etárias, ligados à educação e à cultura”, disse.
Segundo Rosilene, o contato com pessoas de diferentes origens também fortalece as discussões sobre pertencimento, território e migração presentes em suas obras.
“Quando a gente traz livros falando de cidades, de lugares e de pessoas migrantes, é uma forma de fazer com que as pessoas olhem para essas realidades”, completou.
A literatura infantil também teve espaço de destaque na programação. A escritora Liduína Vidal apresentou cinco obras ao público e compartilhou novidades sobre seus projetos voltados para a formação de leitores mirins.
Entre os títulos apresentados estavam O Muro e o Jardim, A Pajé, o Potir e os Primos, Meu Bisavô e Amigo do Curupira, Os Guardiões da Sabedoria e A Pedra de Resina Perfumada. Segundo a autora, este último livro foi aprovado em primeiro lugar no Edital Cidade Mais Infância e ganhará adaptação para o teatro.
“Em junho vai ser apresentada uma peça com a história do livro. Todo mês de junho vai ser apresentada para as crianças terem acesso”, contou.
Além das obras, Liduína chamou atenção pela estratégia utilizada para despertar a curiosidade das crianças antes mesmo da leitura. Em meio ao universo digital, ela apostou em monóculos com imagens dos livros para criar uma experiência sensorial com os pequenos leitores.
“Eu estou numa luta anti-digital, então trouxe monóculos com imagens do livro para as crianças verem, ficarem curiosas e quererem saber da história”, explicou.
A autora relembrou ainda a própria infância em Juazeiro do Norte e a relação afetiva que tinha com o objeto.
“Ter um monóculo era uma riqueza para mim. E hoje os meninos acham incrível. Eles olham e dizem: ‘Olha, dentro dessa caixinha tem uma figura’. Eles ficam impressionados”, afirmou.
Além dos estandes e lançamentos de livros, a programação da feira contou com oficinas, rodas de conversa e atividades de mediação de leitura. Uma das ações aconteceu na comunidade quilombola Serra do Evaristo, onde o escritor Vinicios Ferraz realizou uma atividade com crianças da região.
“Eu fico extremamente feliz em ter realizado essa mediação de leitura com as crianças do quilombo Serra do Evaristo. É muito bonito quando descentralizamos os processos, saímos das sedes dos municípios. Quando a literatura chega aos rincões dos lugares, serra acima, que na verdade, para mim, é centro”, afirmou.
O escritor também destacou a importância cultural e histórica das comunidades quilombolas.
“Os quilombos são centrais em cultura, arte, preservação ambiental e amor”, concluiu.
Essa foi a primeira vez que participei da feira literária que já percorreu diversos municípios cearenses desde o ano passado. Para mim, a troca de experiência com outros autores e o bate papo com leitores são riquezas intangíveis. Além dos stands, houve apresentações culturais e lançamentos de livros.
Segundo Maura Isidório, orientadora da Célula do Livro e Leitura da Secretaria da Cultura do Ceará, toda a estrutura da feira foi pensada para proporcionar uma experiência de imersão aos moradores de cada município contemplado.
“Tudo é pensado para os moradores de cada município terem uma experiência de imersão. Os stands são projetados pelo renomado artista Júlio Pitombeira para proporcionar uma experiência de livraria ao leitor. Temos academias literárias, livreiros presentes também”, destacou.
Maura ressaltou ainda a importância das ações descentralizadas promovidas durante a programação, como as oficinas realizadas em comunidades tradicionais.
“Houve momentos de congregação com a comunidade, como a oficina no quilombo. Os resultados de uma ação como essa são imensuráveis”, afirmou.
Durante a programação também foi apresentada a nova política pública de livro e leitura lançada recentemente pelo Governo Federal. A partir desse debate, a expectativa agora se volta para a construção e fortalecimento de políticas estaduais e municipais voltadas ao setor — tema que deve ganhar espaço na próxima edição desta coluna.
Ao longo dos três dias, a feira literária transformou Baturité em um espaço de encontro entre leitores, autores e diferentes expressões culturais. Entre poesia, literatura infantil, memória, ancestralidade e experiências de migração, o evento reforçou a importância da circulação da literatura cearense e do fortalecimento dos autores independentes no estado.
Gravei um episódio especial do podcast Cafezim com Literatura. Em breve, vocês conferem junto comigo! Já estou editando, aguardem rsrs…
A próxima edição será em Senador Pompeu e as inscrições foram prorrogadas, fica a dica!
Ver comentários (4)
A Feira Literária de Baturite cumpriu muito bem o seu papel, como é assim nas demais localidade. Ir aonde o leitor está. Sair da capital e levar literatura literalmente para os municípios do Ceará. Sua presença deixou a feira com gosto de café bem quentinho. Obrigada
Maravilhosa matéria, e 9 projeto FEIRAS LITERÁRIAS do CEARÁ é muito mais que livros e encontros de afeto, histórias que ouvimos e partilhamos.
Como Maura Isidório "é a Festa da literatura" Eu digo que a palavra dança e dá cambalhotas nesses 3 dias.
Obrigada por seu carinho e apoio 😘
Maravilha. Bom que o livro ganha assas e ocupações, seria ainda melhor se o livro não ficassa só de passagem, mas pudesse aterrisar nas bibliotecas das escolas para que fossem acessados pelos alunos, e assim eles conheceriam as obras dos autores cearenses. Vamos acrediditar que um dia isso será possível.
Foi muito massa conhecer vocês do blog nessa Feira Literária. Como autor caririense, valorizo e aplaudo demais essas iniciativas literárias que dão tanta oportunidade para escritores e leitores cearenses.